segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Com TRAPAÇA, o diretor David O. Russell constrói um universo fake e exagerado, cujo plot não dá pra se levar muito a sério (trata-se de uma grande brincadeira, sem qualquer conteúdo mais denso, que envolve os percalços de um casal de agiotas recrutados por um agente do FBI para desvendar as operações ilícitas de um mafioso). Dizem por aí que é uma 'homenagem' ao cinema norte-americano dos anos 70, o que fez do filme figurar na maioria das listas de melhores do ano (a maioria das indicações são um grande exagero, provavelmente pelo respeito que o diretor vem adquirindo junto à crítica hollywoodiana nos últimos anos). É uma comédia cheia de farsas, permeada de pequenas delícias: a trilha sonora com canções dos anos 60 e 70; algumas cenas memoráveis (especialmente as que envolvem as atrizes); Amy Adams e Jennifer Lawrence esplendorosas brigando por um homem barrigudo e feioso (o fraquíssimo Christian Bale); e uma sequência sensacional ao som de Live and Let Die, de Paul McCartney.

Para ver: TRAPAÇA (American Hustle, 2013, de David O. Russell). Com Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Jeremy Renner.
Cotação: 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Além das competentes atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto, nada vai muito além do "ok, próximo" para CLUBE DE COMPRAS DALLAS - por vezes bastante irritante em sua tentativa de dar fôlego a seu argumento. É uma narrativa burocrata sobre um cidadão americano que, nos anos 80 e no auge do surto de transmissão do vírus da AIDS, diante dos tratamentos ineficazes utilizados pelo sistema de saúde dos Estados Unidos, decide buscar ele mesmo novas fontes de tratamento junto às pesquisas acadêmicas e distribuir a droga para outros portadores do HIV. Obviamente que o protagonista vai provar para o país inteiro que ele estava certo em relação aos novos medicamentos, muito mais eficientes, salvando a nação. 

Para ver: CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas Buyers Club, 2013, de Jean-Marc Vallée). Com Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Denis O'Hare, Steve Zahn. 
Cotação: 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Amor Pleno
Amor Pleno, 2013, de Terrence Malick.

O diretor britânico Steven McQueen (do sensacional SHAME, de dois anos atrás) escreve seu nome no cinema norte-americano tocando em uma das maiores feridas da história dos Estados Unidos: a escravidão negra. Baseado em fato real, a narrativa acompanha doze anos da vida de Solomon Northup (o ótimo Chiwetel Ejiofor, na disputa do Oscar de Ator do ano) durante o século XIX. De negro liberto, com família constituída e trabalho nobre, Solomon é sequestrado e vendido como escravo para trabalhar nas fazendas de algodão do sul escravagista. 

McQueen usa o ótimo roteiro de John Ridley para escancarar os maus tratos e a aflição sofrida pelos negros durante aquele período e, talvez inspirado pelo classicismo da época, constrói seu cinema da mesma forma: grandes paisagens naturais, grandes cenários de edificações com interiores minuciosamente decorados, papéis fortes, densos, com (quase) a mesma complexidade vista em seu filme anterior, e incrivelmente bem atuados em cenas marcantes.

Colocando 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO no mesmo patamar que GRAVIDADE (já que estes parecem ser os filmes de 2013 para o cinema norte-americano), o filme de Steve McQueen ganha a disputa pela pertinência moral, social e histórica de sua obra, mas perde em todas as outras. É um belíssimo registro de uma época que merece ser lembrada para nunca mais ser repetida - filmado em belas cenas mas mantido à certa distância pelo diretor. Talvez falte um pouco mais de alma ou coração (como os que surgem das lágrimas de Lupita Nyong'o ao tronco e da tocante cena final) para tirar da obra certo gosto insípido que fica após sua exibição.
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Para ver: 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO (Twelve Years a Slave, 2013, de Steve McQueen). Chiwetel EjioforMichael K. WilliamsMichael FassbenderBrad Pitt, Quvenzhané Wallis, Adepero Oduye, Benedict Cumberbatch, Paul Dano, Sarah Paulson, Lupita Nyong'o
Cotação: 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

"O momento em que choramos em um filme não é quando as coisas ficam tristes, mas quando elas acabam sendo mais bonitas do que esperávamos que fossem." 

Alain de Botton, filósofo.

PHILOMENA aposta na ciclicidade da história do bebê roubado da personagem título, vivida por Judi Dench, como dorso principal de sua narrativa, o que ajuda a legitimar a história real, que se contada com bem menos cuidado do que o diretor Stephen Frears trata, certamente cairia em um dramalhão. Vejamos: jovem freira transa com um cara numa noite e engravida; as irmãs do Convento tiram o filho de seu convívio, o menino é adotado por uma família de outro país, e depois de 50 anos a mãe, junto a um jornalista decadente, inicia a busca pelo garoto, e descobre que ele se tornou importante figura política, ao mesmo tempo que manteve às escuras um sólido relacionamento homossexual, findado por conta de sua morte prematura, após adquirir o vírus da AIDS. O diretor inglês aposta firme em seus atores e a direção caminha estabelecendo um laço forte entre eles e se apoiando em ambos, mas sem exagerar nos sentimentalismos ou nos posicionamentos clichês, o que engrandece bastante a trama, tratando o assunto com impressionante sobriedade.
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Para ver: PHILOMENA (idem, 2013, de Stephen Frears). Judi DenchSteve CooganSophie Kennedy ClarkMare Winningham
Cotação: 


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

ELA provavelmente é um daqueles filmes que detém potencial e qualidades para se tornar um referencial da história da sétima arte ou um exemplar extremamente representativo de sua época. É a reinvenção do cinema clássico em uma narrativa incrivelmente contemporânea (sob essa ótica, se encaixa no mesmo padrão de "A Rede Social", de David Fincher). Joaquin Phoenix encara um difícil personagem que se apaixona e vive um relacionamento com um programa de computador inteligente, uma espécie de secretária pessoal informatizada, capaz de controlar tudo em poucos segundos - além de se relacionar incrivelmente bem com seu proprietário. Samantha, a mente inteligente, é loquaz, doce, sensível e um bocado humanizada, que ganha vida na soberba voz de Scarlett Johansson (que nunca tem um rosto em todo o filme). O encontro entre os dois beira o sublime pela honestidade dos sentimentos, e o filme toca em questionamentos realmente fortes sobre os relacionamentos dos dias hoje e sobre sentir-se sozinho em meio ao mundo e ao caos diário. Em alguns momentos, há uma tentativa desnecessária de paralelizar a situação com um espelho de outro relacionamento "normal" que degringolou do dia pra noite (na pouco aproveitada personagem de Amy Adams), o que tira o brilho pleno do enredo de Spike Jonze, mas que merece ser minimizado diante das virtudes apresentadas pelo roteirista e diretor.
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Para ver: ELA (Her, 2013, de Spike Jonze). Com Joaquin Phoenix, Scarlett Johansson, Olívia Wilde, Rooney Mara, Amy Adams, Chris Pratt. 
Cotação: 


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ELA está em cartaz nos cinemas a partir de sexta, 14 de fevereiro.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Com a epopeia de Adèle no alardeado AZUL É A COR MAIS QUENTE, que arrebatou a Palma de Ouro em Cannes na edição de 2013, o diretor Abdellatif Kechiche implode sua protagonista de dentro pra fora, durante os anos de amadurecimento sexual e sentimental da jovem, próximo aos dezesseis-dezoito anos, revelando sua atração por mulheres. Do primeiro olhar de canto de olho para uma amiga da escola, passando ao primeiro beijo ("de brincadeira"), a constatação de que é diferente da maioria das garotas de sua idade a leva ao afastamento dos meninos, ao distanciamento da família (mesmo morando debaixo do mesmo tempo) e ao recolhimento que busca respostas que quase imediatamente a levam a um mundo inicialmente desconhecido - personificadas por Emma, a menina dos cabelos azuis - que formará o restante de sua personalidade, Se a naturalidade da proposta de Kechiche ao lidar com um assunto tão tabu de forma tão sincera choca com as provocantes, longas e corajosas cenas de sexo que a interprete Adèle Exarchopoulos e sua companheira de tela Léa Seydoux fazem, isso também justifica a necessidade do autor em tratar o assunto nesses termos. As duas atrizes brilham, e não foi por acaso que pela primeira vez o festival francês consagrou duas atrizes com a Palma de Ouro (além do filme).

Como o título original indica ("La vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2") o diretor e roteirista propõe uma construção narrativa sem segmentação para os dois capítulos da vida da personagem, que poderiam ser chamados de antes e depois de conhecer Emma. Mas de fato, o que temos são três momentos em cena: a descoberta da sexualidade da personagem, seu romance e o pós-relacionamento. É tudo lindo e de uma coragem formidável, que como todo grande filme, merece ser recebido de peito aberto e sem pressão. 

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Para ver: AZUL É A COR MAIS QUENTE (La vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2, 2013, de Abdellatif Kechiche). Com Adèle ExarchopoulosLéa SeydouxBenjamin Siksou.
Cotação: 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

NINFOMANÍACA é o filme-sensação de 2014, inclusive aqui em Vitória. Ingressos esgotados com dias de antecedência e muita procura não costumam fazer parte do currículo de Lars Von Trier. Mas o resultado fica bastante aquém desse furor. Passada a frustração inicial de perceber que o filme é um produto vendido pela capa e que é impossível negar que o marketing e a publicidade souberam empurrar o filme para muito além de um público que não é o do cinema de Lars  (o que particularmente acho muito bom), fica um gostinho agridoce pelos caminhos percorridos pela produção. Aliando um tema interessantíssimo a uma proposta bastante particularizada ao cinema do diretor (narrativa capitular, argumentos metafóricos), o filme se apresenta como uma tentativa muito mediana de mostrar e desvendar os fatos que fazem de Joe (Charlotte Gainsbourg) uma ninfomaníaca - o roteiro, em flashback, mostra a jornada da protagonista desde seu primeiro contato com o sexo, aos 2 anos, até os dias atuais, quando é encontrada subjulgada em becos imundos em situação degradante por conta do distúrbio (se é que assim pode ser diagnosticado). Ao que tudo indica, o esvaziamento da proposta (que não quer dizer falta de cenas de sexo, como me pareceu que as primeiras críticas do filme apunhalaram) pode ser explicada pela ruptura que parece haver entre os dois volumes do filme (o que só pode ser confirmado depois de assistir ao Vol. 2, com estreia prevista para este primeiro semestre de 2014), que perde ritmo e carece de corte (inclusive textual) para se chegar ao patamar da habitual profundidade dos temas defendidos por Von Trier em seus filmes anteriores. Falta densidade ao dorso que envolve Joe e o ouvinte Stellan Skarsgard (que ouve as lembranças com um ar de "lulismo" - fazendo muitas metáforas inconsistentes e rasteiras, às vezes vergonhosas), mas também sobra ousadia nas piadas que nem sempre estão ali para suavizar a discussão; nas boas e pesadas atuações (típicas do modo Von Trier de guiar seu elenco); e na composição da personagem de Uma Thurman, Mrs. H., uma esposa trocada pela amante, mergulhada em sarcasmo e ironia destacantes, que nasce tão heroína quanto outro grande papel da atriz, a Mia Wallace de "Pulp Fiction". 
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Para ver: NINFOMANÍACA - VOL. 1 (Nymphomaniac, 2014, de Lars Von Trier). Com Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Uma Thurman, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater.
Cotação:   2.5 estrelas


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NINFOMANÍACA - VOL. 1 está em cartaz no Cine Jardins. Confira os horários.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

OSCAR 2014, os indicados. Foi revelado ontem pela Academia de Artes e Ciências de Hollywood, os indicados do ano para o OSCAR, a maior premiação do cinema norte-americano, e mais famosa ao redor do globo. Como já destacavam as nomeações para prêmios anteriores, TRAPAÇA e GRAVIDADE, com dez indicações ao todo, e 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO, com nove, saíram na frente na disputa. NEBRASKACLUBE DE COMPRAS DALLAS e CAPITÃO PHILLIPS, também indicados na categoria principal da noite, receberam seis indicações; O LOBO DE WALL STREET e ELA, cinco; e FILOMENA, que completa a lista principal, obteve quatro.

 oscar2014

Entre as personalidades, destaque para Martin Scorsese, diretor de O LOBO DE WALL STREET, que recebeu sua 11ª indicação (a 8ª como diretor, categoria que venceu com OS INFILTRADOS, em 2006); Meryl Streep, que com sua atuação em ÁLBUM DE FAMÍLIA obteve a 18ª em toda a história do prêmio (um recorde entre os atores); Woody Allen, que recebeu sua 24ª indicação, dessa vez pelo roteiro de BLUE JASMINE; John Williams, possivelmente o mais famoso músico de trilhas incidentais, que obteve sua 48ª indicação, dessa vez pelo filme A GAROTA QUE ROUBAVA LIVROS; e Jennifer Lawrence, atual detentora do troféu de melhor atriz, que volta a disputa como coadjuvante (com grandes possibilidades de vitória), que com essa indicação se tornou a atriz mais jovem (23 anos) a receber mais indicações (essa foi sua terceira).

Grandes nomes do cinema estão de volta à disputa, como Leonardo DiCaprioJulia RobertsSandra BullockJudi DenchCate BlanchettAmy Adams e Christian Bale. E um grande grupo de novatos no prêmio (desconhecidos e conhecidos da meca do cinema), como Barkhad Abdi, Chiwetel EjioforMatthew McConaugheyMichael FassbenderJared LetoSally HawkinsJune Squibb e Lupita Nyong'o, marcam uma possível renovação no quadro da Academia, já que representam cerca de 50% entre as atuações.

A listagem completa de todas as categorias está disponível no site oficial da premiação. E apesar de cada categoria ter seus favoritos, não há ninguém cravado: as disputas estão polarizadas e, em alguns casos, até três nomeados estão sendo considerados como vencedores, o que deixa a briga em aberto e espaço para possíveis surpresas (que tem faltado bastante nas últimas festas do OSCAR). O prêmio será entregue no dia 02 de Março, domingo de Carnaval.

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Para os interessados em acompanhar a festa da melhor maneira (assistindo a todos os indicados, obviamente), é bom ficar de olho: GRAVIDADE e CAPITÃO PHILLIPS já passaram pelos cinemas e estão disponíveis em DVD; O LOBO DE WALL STREET já está em cartaz em Vitória; TRAPAÇA e FILOMENA estão previstos para 7 de fevereiro; ELA e CLUBE DE COMPRAS DALLAS, para os dias 14 e 21 do mesmo mês, respectivamente; 12 ANOS DE ESCRAVIDÃO para 28 de fevereiro; e NEBRASKA ainda não tem data confirmada.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Para um post cheio de pretensões quanto esse, é preciso fazer um mea culpa, por minha completa resignação em fazer uma publicação dessa. E isso talvez explique o porque dos tops que publico desde 2004 (dá uma olhada aqui) não terem sido divulgados em 2011 e 2012. Tenho problemas com listas de preferências (sou daqueles que tem dificuldade em escolher a comida favorita ou em fazer classificação de pratos e restaurantes). Passado toda essa lamúria esse blablablá, o TOP 10 [2013] resume esse sentimento: isso aqui é apenas uma lista de preferências dentre os filmes que estrearam em 2013 no mercado comercial do país. São filmes e pessoas que de certa forma marcaram bem mais o coração do que a cabeça (se é que isso é realmente indissociável). 

Eis, então, o meu TOP 10 do cinema de 2013*:


FILME


2 - Django Livre, de Quentin Tarantino
3 - Anna Karenina, de Joe Wright
4 - Antes da Meia Noite, de Richard Linklater
5 - Amor, de Michael Haneke
6 - Amor Pleno, de Terrence Malick
7 - Jovem e Bela, de François Ozon
8 - A Espuma dos Dias, de Michel Gondry
9 - Azul é a Cor Mais Quente, de Abdellatif Kechiche
10 - Tabu, de Miguel Gomes


DIRETOR


2 - Quentin Tarantino, por Django Livre
3 - Joe Wright, por Anna Karenina
4 - Terrence Malick, por Amor Pleno
5 - Richard Linklater, por Antes da Meia Noite


ATOR


2 - Samuel L. Jackson, como o mordomo Stephen por Django Livre
3 - Daniel Day-Lewis, como Abraham Lincoln por Lincoln
4 - Christoph Waltzcomo o Dr. King Schultz por Django Livre
5 - Joaquin Phoenix, como Freddie Quell por O Mestre


ATRIZ


2 - Emmanuelle Riva, como Anne por Amor
3 - Juliette Binoche,  como a escultora Camille Claudel por Camille Claudel 1915
4 - Adèle Exarchopoulos, como Adèle por Azul é a Cor Mais Quente
5 - Sandra Bullockcomo a astronauta Ryan Stone por Gravidade


ROTEIRO


2 - Quentin Tarantino, por Django Livre
3 - Michael Haneke, por Amor
4 - François Ozon, por Jovem e Bela
5 - Abdellatif Kechiche, por Azul é a Cor Mais Quente



*Como em anos anteriores, a lista de preferidos é condensada: não há divisão nas categorias de atuação (principais/coadjuvantes) nem entre os roteiros (originais/adaptados).

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013


Há uns meses atrás, quando comentei sobre DENTRO DA CASA, filme de 2012 do francês François Ozon que estreou no Brasil no primeiro semestre, fiz uma breve abertura a respeito da velocidade com que o cineasta produz novas obras e versatilidade de fazer bons filmes em diversos gêneros. Pois eis que JOVEM E BELA, o filme de 2013 (que inclusive fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes deste ano), aporta nos cinemas brasileiros neste fim-de-ano (se você correr aos cinemas, é bem capaz de encontrá-lo ainda) e mais (bem mais) que essa sensação de se deparar com um workaholic por detrás das telas, fica uma grande certeza: que baita diretor que o Ozon é! Não que precisasse provar qualquer coisa (Os amantes Criminosos, Swimming Pool, 8 Mulheres, Amor em Cinco Tempos e O Tempo Que Resta estão aí para dizer isso), mas JOVEM E BELA é um assombro de filme, e filmado com uma suavidade ímpar e sem necessidade de arrojos narrativos que chega a impressionar – jamais negarei que mexer na condução linear de uma narrativa é um dos artifícios mais lindos que um cineasta pode fazer (abusando dos elementos visuais de composição dela, fica ainda melhor). Mas Ozon não precisa. Ele tem Marine Vacth como protagonista e, sabiamente, deposita em seus ombros o olhar de uma trama que só mesmo os europeus (especialmente os de Paris e arredores) tem culhões para filmar: uma adolescente de dezessete anos, de classe média alta e vida ajustada, sem qualquer traço de paixão pelos garotos de sua idade que decide... se prostituir. Sem objetivos financeiros, sem motivos imediatos. A belíssima Isabelle, quase ao acaso, decide transgredir as regras da moralidade social e embarca num processo às escuras, que obviamente vai explodir e emplodir sua família junto. Ozon é perspicaz e explora a sensualidade dos personagens (não só de sua protagonista) e situações ao máximo, sugestionando acontecimentos que deixam o espectador com todos os questionamentos possíveis que elevam o potencial crítico da trama. E sendo repetitivo: impressiona o quanto Ozon explora sua Isabelle, que sai do olhar angelical e juvenil como a adolescente de ensino médio para projetar-se em salto alto e saia colada nos quadris sobre as calçadas das ruas parisienses, adentrando solenemente pelos halls dos hotéis mais nobres da cidade, indo ao encontro dos mais diferentes homens, nos muitos quartos a sua espera. 
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Para ver: JOVEM E BELA (Jeune e Jolie, 2013, de François Ozon). Com Marine Vacth, Géraldine Pailhas, Frédéric Pierrot.
Cotação:

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JOVEM E BELA está em cartaz no Cine Jardins. Confira os horários.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013


Com SOBRENATURAL: CAPÍTULO 2, o diretor James Wan dá um tiro no próprio pé: o maior trunfo e ousadia também origina o maior ponto frágil de sua obra. Com o roteiro da Leigh Whannell, também responsável pelo primeiro filme, Wan retoma com vigor os acontecimentos do filme original – esta continuação começa exatamente do ponto onde o anterior terminou -, conseguindo não só dar uma continuidade interessante e sustentável aos eventos anteriores como entrelaça-los à história atual, o que é sempre muito interessante para uma “parte 2”. O problema fica por conta do excesso de explicações para uma trama que busca uma ‘falsa complexidade’ (múltiplas cenários - casas e quartos mal-assombrados -, e a busca por respostas que sempre leva a outras perguntas e a outros lugares e a outros personagens) e se perde em não concluir de modo eficiente algumas respostas cruciais para situações que ela mesma cria (há uma espécie de contato entre alguns personagens do plano espiritual com eles mesmos em um plano real que não segue a cronologia e temporalidade das coisas como elas são ou, pelo menos, deveriam ser). Eliminando os excessos (o alívio cômico que o diretor busca com a inserção de alguns personagens, com os diálogos e situações insignificantes que rendem planos e sequências inteiras que comprometem o ritmo do filme), sobra ao espectador a literalidade das ações: quem embarca na dualidade entre suspense e surpresa que o diretor apresenta, vai se deparar com muitos elementos aterrorizantes para um grande filme do gênero. Para cada fantasma que sai de dentro do armário durante a noite ou aparece no espelho, há um impressionante clima de cena que induz ao terror, com Wan apostando forte no susto que vem da visualidade das ações e menos na subjetividade de “arrepiar os cabelos”.
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Para ver: SOBRENATURAL: CAPÍTULO 2 (Insidious: Chapter 2, 2013, de James Wan). Com Patrick Wilson, Rose Byrne, Barbara Hershey.
Cotação:
   

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SOBRENATURAL: CAPÍTULO 2 está em cartaz nos cinemas da Grande Vitória.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013


Jasmine abandona Manhattan pelo subúrbio de San Francisco, onde passa a viver com a irmã, nitidamente menos abastada que ela, o namorado grosseirão e os sobrinhos pouco educados. A derrocada veio após uma série de incidentes em sua vida glamourosa: a prisão do marido fraudador, a perda dos bens e fortuna, a descoberta das inúmeras amantes do esposo - que frequentaram sua mansão ao longo dos anos -, e o filho que abandona Harvard e foge sem notícias após a confusão armada. Jasmine, nascida Jeanette, filha de pais adotivos, largou a faculdade de antropologia no momento em que conheceu seu marido. Frívola, fútil, mesquinha, interesseira e esnobe são alguns de seus adjetivos, desvendados em uma série de flashbacks que atravessam seu momento atual. Apaixonada pela canção ‘Blue Moon’, representação de sua elocubrada vida de sonhos, a blue Jasmine desce ao inferno e fica à beira de um colapso nervoso, que a transforma.

Blue Jasmine

Com BLUE JASMINE, revisitando um dos maiores clássicos do teatro e do cinema norte-americano (Um Bonde Chamado Desejo/Uma Rua Chamada Pecado), o mais verborrágico dos cineastas da história do cinema, o mestre Woody Allen, surpreende outra vez pela capacidade de simplificar a narrativa que faz nascer uma das personagens mais fortes que o diretor e roteirista construiu ao longo de quase cinco décadas de trabalho. Cate Blanchett, a protagonista, em nada deve à atuação de Vivien Leigh (de UMA RUA CHAMADA PECADO), que é facilmente uma das melhores da história do cinema: ela carrega um olhar aterrador, capaz de transmitir desprezo ou transfigurar seu próprio transtorno, dando à Blanchett a possibilidade de atuar de uma ponta a outra do comportamento humano.

É a soberania e inteligência de um cineasta que, em aparente acaso (Woody faz questão de deixar claro que filmar é um exercício delicioso, desde que ele possa atravessar a rua e dormir em sua cama após um dia de filmagens) faz seu filme nascer na sala de montagem, de posse da magnitude das imagens que carrega debaixo do braço após o período em que ‘brincou’ de encenar a vida real... uma daquelas coisas que só o cinema é capaz de fazer. Lindo, lindo. 
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Para ver: BLUE JASMINE (idem, 2013, de Woody Allen). Com Cate Blanchett, Sally Hawkins, Alec Baldwin.
Cotação:
  

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BLUE JASMINE está em cartaz no Cine Jardins

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A essa altura, não dá pra ficar de fora do hype que envolve GRAVIDADE ao redor do mundo: o filme que recebeu as melhores e mais empolgantes criticas se confirma diante de um público que assiste angustiado a saga da astronauta Ryan Stone, que após um acidente espacial vaga pelo espaço em busca de qualquer porto-seguro. É um filme estupendo, praticamente irretocável, e não é difícil de imaginar que em muito pouco tempo passará a figurar na lista dos grandes títulos que já fazem parte da história do cinema e da arte.

Da mesma forma que também seja bastante pouco provável que qualquer análise dê fim às multiplicas questões inerentes à complexidade temática e complexidade de imagens que o filme dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón propõe. Sinteticamente, ao lançar a protagonista - vivida por uma impressionante Sandra Bullock – no vazio do espaço, a 600km de distância do nosso planeta, em condições muito particulares do ambiente ao redor, o diretor propõe uma espécie de “minimização do conjunto cenográfico” para ampliar a dramatização dos dilemas existenciais da personagem, que de certa forma ressoa no espectador que, angustiado, assiste a tentativa de sobrevivência da mulher (e, afinal de contas, o que fazemos todos os dias, mesmo na segurança da poltrona e de frente à TV, senão nos mantermos vivos?). Pungente e visceral, GRAVIDADE não deixa saídas e flerta com o espectador de todas as formas possíveis e no tom exato – fazendo uma brincadeira com outra arte, não dá pra sair do cinema acreditando na veemência da cabal “Menos é Mais” que Mies Van Der Rohe, um dos cânones da arquitetura mundial, sugeriu como forma de ampliar o sentido da coisa em uma forma, digamos, menos ‘arrojada’, mais ‘limpa’. Os mais interessados pelo processo de execução, certamente vão se perguntar como Cuarón lida com os inúmeros artefatos de filmar (imagens apaixonantes do espaço, máquinas e estações espaciais ultra-tecnológicas, e personagens que bailam no ar) e ainda encontra o tom absurdamente humano de sua história.

Gravidade

Mas mais que tudo isso (me parece ser uma suposição possível e justificável neste momento), o que transfere à GRAVIDADE o status de poder figurar num hall de grandes filmes de história, é justamente uma possível conexão que ele estabelece com outro exemplar de referência histórica: 2001, UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, de Stanley Kubrick. Certamente um dos filmes mais enigmáticos já feitos, o clássico de 1968 encerrava com um dos planos mais reconhecidos no cinema e, provavelmente, um cujo sentido seja o menos óbvio que possa parecer: o bebê envolto na "placenta". Além das claras motivações da astronauta Ryan Stone (não há como citar alguns spoilers a partir daqui), cuja vida ganhou/perdeu contornos com vida/morte de sua filhinha, Cuarón permeia o filme de pequenos e grandes símbolos a essa fase da vida (a brincadeira com os latidos de cachorro, típica de criança; o bebê que o chinês cuida enquanto Ryan tenta estabelecer contato – que não por acaso vem do local mais populoso da Terra) e na transcrição do ciclo da posição fetal que Sandra Bullock permanece ao adentrar, pela primeira vez, em um ambiente seguro após os inúmeros incidentes na evasão do espaço. Um daqueles filmes gradiosos que o cinema produz.


GRAVIDADE
(Gravity, EUA/2013, de Alfonso Cuarón)
Cotação: 















quinta-feira, 15 de agosto de 2013

To The Wonder

O sempre reflexivo Terrence Malick parece ter gostado da busca pela representação da subjetividade no cinema através das imagens fugidias. Após o cultuado A ÁRVORE DA VIDA, vencedor da Palma de Ouro em Cannes há dois anos, um retrato belíssimo sobre os acontecimentos da vida que cercam o homem e seu entorno, ele retoma o olhar apurado para o espaço existente entre o homem e a natureza, se afastando da grandiloquência e apostando em uma discussão mais intimista que parece ser uma extensão do assunto apenas tangenciado no filme anterior: a existência de relacionamentos incondicionais desprovidos de qualquer razão, do qual muito pouco se pode explicar – como a origem da vida.

Entre Paris e Oklahoma, Ben AffleckRachel McAdams e Olga Kurylenko vivem um triângulo amoroso impregnado de incertezas, cuja permissão parte dos próprios e é originada pela dificuldade intrínseca ao homem de se comunicar. O discurso sobre aceitar a incondicionalidade do sentir diante daquilo que não se pode provar logicamente – nem sempre o que se diz é o que se quer dizer –, ressoa nos dilemas do personagem vivido por Javier Bardem, um padre que questiona a existência de Deus e a ligação Dele com o homem – talvez por esperar por aquilo que não se concretize (bem semelhante ao ato de se relacionar romanticamente). A consequência é uma crise existencial que Malick prefere contemplar e, com os pouquíssimos diálogos e uma lacônica narração em off, apresentar através dos planos abertos sobre a paisagem a presença de algum personagem de braços estendidos, movimento de diretor e personagem em uma busca de respostas – em um filme sobre a incomunicabilidade entre pessoas, o diretor aposta em um elenco mudo e incrivelmente gestual e os poucos diálogos são falados em quatro idiomas diferentes.

O arranjo espacial e o cromático que envolve a paisagem natural, passando pela arquitetura dos cenários e até as vestimentas e os acessórios utilizados pelos atores, apresentam algumas dicotomias interessantíssimas para serem analisadas mais profundamente – até por que devem significar mais do que meras escolhas de oposição de personagens (em especiais as que envolvem os dois polos femininos da trama). As escolhas do cinema de Malick caminham outra vez para unir forma e conteúdo e a difícil comunicação entre personagens transpassa para a própria narrativa do filme, que mesmo sem um argumento tão filosófico (ou 'difícil') quanto o antecessor, aposta de forma pesada nesse cinema fugidio – e talvez essa seja a grande questão do filme e o motivo de ter dividido tanto a opinião da crítica desde sua estreia: a subjetividade impressa é resultado de um modo de fazer cinema cada vez mais autoral (‘o jeito Malick de filmar’) ou uma extensão piedosa e preguiçosa de um sucesso retumbante?
De qualquer forma, é difícil não enxergar na obra a poesia das sublimes imagens vistas nesse processo de subjetivação do cinema e encarar seu autor, Malick, como um pintor impressionista do século XIX que se afasta do realismo e transforma seu cinema em uma degustação para olhos e alma.
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Para ver: AMOR PLENO (To The Wonder, 2012, de Terrence Malick). Com Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem.
Cotação:4estrelas   



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AMOR PLENO está em cartaz no Cine Jardins

sexta-feira, 12 de julho de 2013



Em A ESPUMA DOS DIAS, o diretor francês Michel Gondry leva ao extremo as excentricidades visuais e narrativas que já faziam parte de seus trabalhos anteriores, como BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS e SONHANDO ACORDADO.  Cada vez mais infiltradas no processo de contar a história do filme, as ‘estripulias’ ganham forma e conteúdo impressionantes que, inicialmente, podem até assustar o espectador menos acostumado à esfuziante criatividade com que Gondry constrói seu universo – que dessa vez, é adaptado da obra homônima do autor francês Boris Vian, e não é exagero dizer que poderia ser encarado como uma sucessão de pinturas de Salvador Dalí em movimento.

Em pouco mais de duas horas, Gondry abusa do surrealismo para formular a representação de um mundo novo e fantasioso, uma Paris que desafia as leis da física e da qual lógica e racionalismo não fazem parte. Nesse aspecto, a sequência de abertura é fundamental para entender o filme: nela, uma equipe de datilógrafos se reveza na escrita da narrativa da vida do protagonista, Colin, no exato momento em que as palavras passam a virar ações, como um personagem da literatura que ganha vida real – Gondry retoma o espaço da sala da datilografia em momentos pontuais ao longo do filme, a mais genial delas quando Colin tenta fazer parte da equipe de digitadores, como se quisesse passar a controlar sua própria vida, que saiu completamente de seu controle.

a espuma dos dias

Colin (Romain Duris) é um bon-vivant que vive de uma quantia que tem na poupança (sem nunca ter precisado trabalhar) e mora em uma confortável residência cheia de aparatos ultra tecnológicos, que ganham vida ou dialogam com os personagens sobre uma ótica anacrônica, completamente distante da realidade do nosso tempo. Contratou seu advogado como cozinheiro e conselheiro (Omar Sy) e dá uma importância grande à sua condição financeira (sua relação com seu cofre é primordial pra se compreender onde Gondry quer chegar), esbanjando em jantares regados à comidas e bebidas exóticas. No entanto, Colin vê todos ao seu redor completamente apaixonados e decide que precisa seguir o mesmo caminho e em uma festa ele conhece a jovem Chloé (Audrey Tatou), e do primeiro encontro (que o leva às nuvens, literalmente) logo decidem se casar. A felicidade avassaladora de uma vida boa se esvai quando a esposa descobre uma doença: uma flor de lótus cresce em seu pulmão e o tratamento é urgente e necessário (uma metáfora linda, mas não menos dolorosa para o câncer), transformando a vida dos dois em completa melancolia.

Da alegria à depressão, Gondry capta sua trama com profundo domínio do espaço, mostrando a degradação da vida dos personagens a partir da depreciação da residência do casal, que aos poucos vai perdendo partes e se tornando completamente disfuncional – como uma vida acometida por um problema de saúde. Inúmeras outras metáforas são construídas ao longo do filme, cada uma mais deliciosa e imbuída de uma mistura ironicamente poética, capaz de retratar com exatidão o sentimento daquilo que se quer contar, em especial nos episódios do cotidiano dos personagens (como alguém que “corre tanto que parece querer fugir da própria sombra” ou que “fica de cabelos brancos de tanta preocupação”).  
Nesse tempo e espaço indefinido, Gondry entrega ao espectador uma fábula praticamente irretocável sobre o esse gostinho agridoce que a vida faz questão de nos lembrar todos os dias.






A ESPUMA DOS DIAS
(l'écume de jours, frança, 2013, de michel gondry)




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A ESPUMA DOS DIAS está em cartaz no Cine Jardins s e os horários e salas podem ser conferidos aqui.