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quinta-feira, 28 de julho de 2016

DOIS CARAS LEGAIS, dirigido por Shane Black. Estreou nos cinemas do Brasil em 21/07/2016 e passou no último Festival de Cannes, em maio, de onde saiu bem elogiado - o que, confesso, não entendi. O diretor aposta em um filme de dupla masculina (como já tinha feito em Beijos e Tiros, de onze anos atrás) para atingir especialmente o público masculino que busca comédia e ação. Russell Crowe é o macho truculento que bate para depois perguntar enquanto Ryan Gosling é o macho paspalhão mas espertinho. Os dois são investigadores que estão atrás de um mesmo caso, o desaparecimento de uma atriz pornô no auge da indústria dos anos 70. Um prato cheio para versar sobre brutalidade e sexo (dois clichês adorados pelo público masculino). Mas falta nudez, gente pelada. Falta sangue, nariz quebrado. Sobram boas intenções (que quase nunca vingam) e da relação entre os atores surgem algumas boas piadas.  Mas só.


sábado, 23 de julho de 2016

THOSE PEOPLE, dirigido por Joey Kuhn. Estreou nos EUA em Maio/2016. Se eu tivesse que fazer uma associação deste filme com qualquer outra coisa do mundo, certamente seria a canção "Carter and Cash" do Tor Miller. E acho que não haveria nenhuma outra maneira (ok, certamente hajam outras) para descrever a trama e o sentimento que dela se extrai. Filme (e por que não música?) retratam a história de Charlie e Sebastian, dois jovens amigos de infância que curtem suas juventudes ("and all the while the world") com um festeiro grupo de amigos ("running wild, trying to set myself free"na cidade de Manhattan ("we'll paint the town until it all burns down"). Charlie é um talentoso artista que se apaixona ("caught in a fever that's so pure and true") pelo amigo riquinho e solitário. As antíteses artista x riquinho vão ser exploradas ao máximo ao longo do filme, resultando em sonhos desfeitos - "fleeting dream"- e em um coração partido que nunca desiste - "heartbeat like it never could stop". Sebastian condiciona Charlie às suas vontades ("don't worry girl, I'll always gonna be around"), até que Charlie conhece Tim e percebe (talvez não com tanta clareza) que precisa se afastar pra poder seguir com sua vida adiante ("I walked away, never look back"). Uma daquelas triviais e deliciosas histórias de amor que podem ou não ter um final feliz, abrindo os olhos para o que realmente importa: a vontade de viver o sentimento que existe dentro da gente (como Celine abriu os olhos de Jesse em Antes do Amanhecer - "Se há algum tipo de magia nesse mundo... deve estar na busca de compreender alguém, compartilhar algo. Eu sei, é quase impossível conseguir, mas... quem se importa realmente? A resposta deve estar na busca").

quinta-feira, 21 de julho de 2016

AVE, CÉSAR!, dirigido por Joel e Ethan Coen. Estreou nos cinemas do Brasil em Abril/2016. Ao longo dos últimos 30 anos, os irmãos Coen tem realizado algumas das melhores sátiras e filmes de humor negro, recheados de personagens densos e excêntricos, em tramas cujo absurdo empurra as obras em direção à traços de genialidade (Fargo e Queime Depois de Ler são bons exemplos). Há 12 anos eles erraram a mão com Matadores de Velhinha. Agora repetem o erro com seu filme mais recente (a primeira comédia depois de uma sequência de três obras dramáticas). Em uma homenagem ao cinema da década de 50 em Hollywood, o filme retrata o dia-a-dia de um "protetor" das grandes estrelas dos estúdios, que tenta resolver as futilidades que surgem enquanto o astro Baird Whitlock (vivido por George Clooney) é sequestrado por uma facção 'comunista'. O filme abre espaço para a reprodução de esquetes de produções típicas da Era de Ouro de Hollywood, como os musicais aquáticos de Esther Williams e os famosos números de dança de Gene Kelly e Fred Astaire. Alguns se sobressaem, outros beiram o tédio. Destaque para o elenco feminino: as participações de Frances McDormand, Tilda Swinton e Scarlett Johansson são primorosas.

quinta-feira, 5 de março de 2015

CINQUENTA TONS DE CINZA (Fifty Shades of Grey, 2015, de Sam Taylor-Johnson)Na semana em que o congresso brasileiro, um dos mais conservadores (pra não dizer retrógrados) do mundo, aprova uma lei de proteção à mulher, tornando o feminicídio crime hediondo, CINQUENTA TONS DE CINZA atinge a marca dos 5 milhões de espectadores nos cinemas nacionais (depois de catapultar milhares de leitores com o best-seller há cerca de dois anos). A comparação seria esdrúxula se a trama do filme não levantasse a bandeira de um machismo repugnante por trás de uma pseudo proposta de um soft porn fetichista. Christian Grey e Anastasia Steele não vivem um romance que deveria ser motivo de suspiros dentro do cinema, pelo contrário: os personagens que o filme apresenta colocam em posições diametrais uma jovem ingênua e indecisa (clichê maior do imaginário do macho alfa) que se torna isca para um poderoso homem que possui segredos e desejos dos quais ele mesmo parece se envergonhar (que não pode ser dito de forma direta, que ninguém da família sabe, que está trancando dentro de um quarto escuro). O objetivo: contratar a jovem como sua escrava sexual (sim, contratar, de papel passado, com a enganação de ser ‘consensual’ mas cheio de cláusulas e pronomes de tratamento chocantes: submissa e dominador) e garantir de todas as formas o controle de sua posse (invadindo sem convite prévio os locais onde Anastasia tem a liberdade de existir por si só, com os amigos em uma boate ou um final-de-semana com a família; ou ainda comprando-lhe presentes caros). A diretora que se presta a este desprazer, Sam Taylor-Johnson, deveria se envergonhar pela falta de sensatez ao levar adiante as aparentes bizarrices (não li o livro) da autora E.L. James (vejam só, duas mulheres!) quando notícias como esta se tornam cada vez mais frequente. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015


Há três grandes trunfos em WHIPLASH: o roteiro, que passa por cima do fundo moralista, maniqueísta e clichê de tantos outros filmes que apresentam personagens em um duelo; a direção, que acerta o tom em uma edição esfuziante; e os atores, alma da trama que aborda a rotina de um obstinado estudante de música e seu relacionamento com um professor carrasco.

Damien Chazelle, autor do roteiro e diretor do longa, se baseou em suas experiências pessoais para narrar a história de Andrew (Miles Telles), um garoto de 19 anos que é admitido na melhor escola de música dos Estados Unidos para desenvolver sua paixão pela bateria e pelo Jazz. Em seu caminho, o professor Terence Fletcher (J.K. Simmons), um autoritário de primeira linha, também conhecido pelo seu apuro no desenvolvimento de grandes talentos da música. A obstinação do moleque em se tornar ‘o melhor baterista de sua geração’ – suor e sangue é o mínimo da dedicação diária para ele – também é o fio que conduz seu mentor. A diversão, então, é substituída por medo, ansiedade e estresse extremos, com os personagens agindo como boxeadores em um ringue de batalha.

Chazelle transfere esse espírito para a direção do filme, compondo planos curtos e de rápida transição - como as batidas nos pratos do instrumento musical que é centro da história – em um exercício de edição que reforça a tensão do embate entre Andrew e Fletcher. E não hesita em exibir determinadas ações uma, duas, três, quatro, cinco vezes em sequência, transferindo para o público o cansaço da repetição própria de quem busca perfeição na música – que o subtítulo nacional do filme entrega mastigado para o público. WHIPLASH saiu premiado como melhor filme do Festival de Sundance em 2014 e já é um dos destaques da temporada de premiação, com as honras maiores caindo sobre os ombros de J.K. Simmons, que constrói um personagem cuja sensibilidade musical deságua em um abuso desmedido de seus pupilos, tomado por um poder coercitivo que parece saber dosar e transformar como ninguém a potência vocal. 

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Para ver: WHIPLASH - EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash, 2014, de Damien Chazelle). Com Miles Telles, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist.
Cotação:

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O ano de 2015 recém começou e ainda há uma infinidade de filmes produzidos no ano passado para desembarcar no mercado exibidor nacional, como os da Temporada do Oscar. Ainda assim, cinéfilos e fãs já se agitam em torno das produções que vão chegar aos cinemas neste ano. O site In Contention compilou uma lista interessantíssima sobre os títulos norte-americanos e as pessoas que vão dar as caras em 2015: os novos filmes de Steven Spielberg (um thriller sobre a Guerra Fria ainda sem nome definido), Quentin Tarantino (THE HATEFUL EIGHT), Gus Van Sant (THE SEA OF TREES), Guillermo Del Toro (CRIMSOM PEAK), Todd Haynes (CAROL), Martin Scorsese (SILENCE), Jonathan Demme (RICKI AND THE FLASH), Michael Mann (BLACKHAT),Terrence Malick (KNIGHTS OF CUP), Alejandro Gonzáles Iñárritu (THE REVENANT) e Richard Linklater (THAT'S WHAT I"M TALKING ABOUT) fazem parte da aguardada espera. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A briga pelo prêmio de melhor filme do ano nos EUA continua apresentando um claro favorito na categoria principal: BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE foi escolhido o preferido nas associações dos críticos de Los Angeles, Boston e Washington. O diretor do filme, Richard Linklater, também foi eleito o melhor nas três guildas. Já nos prêmios de atuação não há unanimidade: Tom Hardy (Locke) e Michael Keaton (Birdman) fcaram com os prêmios principais para os atores masculinos; enquanto Julianne Moore (Still Alice), Marion Cottillard (Dois Dias, Uma Noite) e Patricia Arquette (Boyhood) ficaram os prêmios de atuação feminina; Patricia foi lembrada novamente na categoria de atriz coadjuvante, junto com Emma Stone (Birdman) e a polonesa Agata Kuleszka (Ida). O ator J.K. Simmons, de Whiplash, ficou com o prêmio de ator coadjuvante do ano nas três seleções.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014



Os dez melhores filmes do ano (em ordem alfabética) para o American Film Institute:


Sniper Americano
("American Sniper", dirigido por Clint Eastwood)

Homem-Pássaro
("Birdman", dirigido por Alejandro González Iñárritu)

Boyhood - Da Infância à Juventude
("Boyhood", dirigido por Richard Linklater)

Foxcatcher - A História Que Chocou o Mundo
("Foxcatcher", dirigido por Bennett Miller)

O Jogo da Imitação
("The Imitation Game", dirigido por Morten Tyldum)

("Interstellar", dirigido por Christopher Nolan)

Caminhos da Floresta
("Into the Wood", dirigido por Rob Marshall)

O Abutre
("Nightcrawler", dirigido por Dan Gilroy)

Selma
("Selma", dirigido por Ava DuVernay)

Invencível
("Unbroken", dirigido por Angelina Jolie)

Whiplash - Em Busca da Perfeição
("Whiplash", dirigido por Damien Chazelle)


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Para os críticos da revista Sight and Sound, o americano BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE de Richard Linklater é o melhor filme do ano. A listagem completa dos #melhoresde2014 tem ainda os novos filmes de Jean-Luc Godard (França), Andrey Zvyagintsev (Rússia), Pedro Costa (Portugal) e Jonathan Glazer (Inglaterra) no #top5. 

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Em INTERESTELAR, a Terra vive um futuro apocalíptico imersa em tempestades de areia e a formação de territórios áridos que aos poucos vão dizimando a população. O destino da humanidade pode estar em planetas e galáxias distantes e uma operação é montada para enviar uma equipe, chefiada pelo ator Matthew McConaughey, para avaliar três possíveis “novas casas” para a população. É nesse cenário devastador da Terra e na imensidão do caos do Universo e suas leis ainda pouco conhecidas que o diretor Christopher Nolan faz seu filme mais ambicioso, uma epopeia de três horas de duração recheada de longas discussões sobre física quântica e complexas relações temporais. No entanto, mesmo sedimentando seu filme em uma intrincada teia de teorias que não cabe a quase ninguém contestar a veracidade (apesar desta discussão ser, no mínimo, interessante de se observar), e que elevam muito o patamar do filme, o diretor (que também é autor do roteiro) parece estar mais interessado em versar sobre os relacionamentos familiares e os valores sentimentais que unem as pessoas. O filme até tem bom ritmo, mas gira em torno das situações mais bregas e infantis possíveis – ou o comportamento das pessoas diante do caos retrocedeu a níveis de chororô insuportável (parte que cabe à filha do protagonista, ainda adolescente), truculência inexplicável (parte que cabe ao ator Casey Affleck, filho mais velho do protagonista em sua fase adulta) e muita dose de charlatanismo (parte que cabe aos personagens dos atores Michael Caine e Matt Damon – este último, por sinal, tem em mãos um dos personagens mais desnecessários na construção de um filme nos últimos tempos). Se atendo aos fatos e não aos argumentos científicos, há situações incrivelmente mal explicadas que, em um tratamento ao conteúdo do roteiro, garantiriam a Nolan um filme muito mais consistente e equilibrado. Ainda assim, o filme reserva lugar para uma deliciosa viagem ao espaço, brilhantemente conduzida pela trilha sonora de Hans Zimmer; uma das cenas mais bonitas do ano – a passagem do tempo na Terra através das notícias dos filhos pelo monitor da espaçonave de McConaughey – e o olhar de Jessica Chastain.  

Para ver: INTERESTELAR (Interstellar, 2014, de Christopher Nolan). Com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Michael Caine, Casey Affleck, John Litgow, Matt Damon, Ellen Burstyn.
Cotação:

domingo, 9 de novembro de 2014



David Fincher abre seu novo filme, GAROTA EXEMPLAR, com um close na cabeça de Rosamund Pike e as perguntas em off do personagem interpretado por Ben Affleck, que vive seu marido, disparam a incerteza sobre um relacionamento aparentemente perfeito: ”O que você está pensando? O que você está sentindo?”.  A partir de então, o trio vivido pelo diretor e atores sai em busca dessa racionalidade insana que permeia as situações cotidianas de um casamento que parte de um intenso clima de romance para um incrível jogo de cinismo e falsidade entre o casal. É um inteligentíssimo suspense de investigação, incrivelmente bem escrito (baseado no best-seller literário de Gillian Flynn, que também é a 'dona' do roteiro) e que recicla boas fórmulas em uma direção estupenda de Fincher, que segmenta a narrativa em duas partes (a primeira coloca Affleck no centro da trama, a segunda é toda de Rosamund Pike), permeadas por flashbacks que justificam cada segundo da ação, sem deixar que a divisão fragmente seu filme. Fincher constrói cenas grandiosas de tensão, crimes e investigação, com grande subversão contextual, uma vez que o objetivo da discussão proposta desde a primeira cena permanece no dorso de seu filme até a última sequência. É bom ficar de olho na atriz principal, Rosamund Pike, pouco conhecida do público brasileiro e que entrega uma das personagens mais odiosas que o cinema já mostrou desde a enfermeira Ratched de “Um Estranho no Ninho”, de 1975, em uma atuação grandiosíssima e cheia de camadas.

Para ver: GAROTA EXEMPLAR (Gone Girl, 2014, de David Fincher). Com Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Carrie Coon.
Cotação:

segunda-feira, 1 de setembro de 2014


Com LUCY, o cineasta francês Luc Besson volta a pisar no terreno do thriller de ficção científica que, possivelmente, lhe rendeu sua maior fama internacional até os dias de hoje, com O QUINTO ELEMENTO. E, se tratando de um tema que conhece, encontra um modo bastante convincente para explorá-lo bem. O que o torna seu novo filme especial é que Besson escolhe um plot que de tanto dito por aí, quase já virou verdade (mesmo que ninguém nunca tenha sequer passado perto de comprová-lo): o mito de que o homem usa apenas 10% de seu potencial cerebral para toda e qualquer atividade que desempenhe.  E com a popularização de um ‘mito-quase-verdade’ nas mãos, o diretor brinca com as possibilidades que o amplo cenário se apresenta para o público, abrindo mão de máquinas e parafernálias tecnológicas em excesso.

A personagem título, uma moça oportunista vivida por Scarlett Johansson, é acidentalmente jogada no meio de um incidente que faz aumentar potencialmente sua atividade cerebral. A partir de então, ela entra em contato com possibilidades extraordinárias de ações que desafiam a ciência, a física e a lógica. Mas o recado que Besson quer dividir, depois de muita experimentação e diversão (perseguições, tiros e sequências de tirar o fôlego, como a que acontece dentro de um avião no ar), é que se talvez nossa inteligência tenha sucumbido diante dos inúmeros neurônios não utilizados, é que possivelmente os sentimentos humanos tenham algum complemento à arte de pensar - o que, de certa forma, explicaria as muitas falhas do roteiro.

E sob esse aspecto, é possível que o medo seja o centro de tudo aquilo que Besson deseja para construir sua personagem humana e existenciar sua raça. Através da ótima atuação de Scarlett, que aos poucos vai esquecendo seus limites para aceitar qualquer coisa, correndo contra o tempo, acelerada feito máquina, antecipando seu destino inerte; seja pelas boas inserções visuais que colam as sensações dos homens nas dos animais (novamente com o medo e a apreensão); ou pela progressão do passado, um dos momentos mais deslumbrantes do filme, que pode ser encarado como um movimento legitimador do ser vivo pela busca desenfreada pelo ultra conhecimento tecnológico que os ambientalistas já apontam como o princípio do fim, panorama que ironicamente Besson parece assinar embaixo.
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Para ver: LUCY (idem2014, de Luc Besson). Com Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi-Min sik, Amr Waked).
Cotação

quinta-feira, 10 de julho de 2014




O diretor Wes Anderson, que já estava acostumado a ousar e fugir do insosso e burocrático senso comum de filmar avança ainda mais nesse seu filme mais recente. O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, seu oitavo longa-metragem, é um primor nos dois aspectos mais interessantes de uma obra cinematográfica: visual e narrativa. E o melhor é que os dois andam de braços dados para contar a história do hotel homônimo cheio dos excêntricos e costumeiros personagens do diretor.

A ação acontece em quatro planos temporais distintos, inteligentemente montados, mas sem excesso de pedantismo que implique em qualquer dificuldade ao entendimento da trama: uma jovem lê uma obra literária sobre o hotel do título, entregando a ação ao autor do livro, que surge em primeira pessoa para narrar o período em que esteve hospedado no local, voltando cerca de trinta anos no tempo, com a ação apresentando o proprietário do espaço, que numa conversa particular lhe revela a história do antigo concierge do Hotel Budapeste, Monsieur Gustave. Wes aproveita os quatro momentos temporais para desfilar uma galeria de interessantíssimos personagens, vividos por habituais e novos colaboradores do diretor – Tom Wilkinson, F. Murray Abraham, Jude Law, Tilda Swinton, Adrien BrodyWillem Dafoe, Mathieu AmalricSaoirse Ronan, Edward Norton, Owen Wilson, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Bill Murrray, Ralph FiennesLéa Seydoux – que encenam seus dramas em um delicioso tom cômico que beiram a ironia e abrem espaço para sequências inusitadas envolvendo crimes e assassinatos, perseguições, mistério e romance (tente não se apaixonar pelas atuações de Fiennes, Swinton e do estreante Tony Revolori).

O diretor é quase um seguidor do postulado forma-função e constrói um cenário sensacional para a representação desse texto. Da espetacular arquitetura do Budapeste às paisagens da fictícia nação Zubrowska, onde o hotel se encontra, tudo parece planejado em suas minúcias e executado com extremo rigor, como se o diretor objetivasse tornar possível um mundo que não existe mais (ou que talvez nunca tenha existido). Direção de arte, fotografia, figurinos, maquiagem, movimentos de câmera e trilha sonora se tornam uma engrenagem perfeita aos propósitos do cinema que Wes Anderson faz. E da belíssima rigidez centralizadora de seus planos e enquadramentos surge um dos filmes cujos aspectos plásticos se tornam pulmão da obra cinematográfica, possivelmente o melhor dos trabalhos do diretor.
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Para ver: O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel2014, de Wes Andeson). Com Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Edward Norton, Saoirse Ronan, Tilda Swinton).
Cotação: 


sexta-feira, 27 de junho de 2014


No cinema majoritariamente feminino, ouvia-se de narizes fungandos à soluços descompassados. Quando a luz da tela deixava a sala escura melhor iluminada era possível enxergar lágrimas e muitos lencinhos. Em cena, Shailene Woodley e Ansel Elgort apresentavam as mazelas de suas vidas cheias de destemperanças, diante da morte iminente, ainda na adolescência. Um casal jovem, uma doença, a empatia entre os dois, o romance, o sofrimento, os últimos desejos, o afastamento, a ameaça real da morte, o fato concreto. Todos os elementos estão dispostos ali, lado a lado, para buscar na plateia o sentimento que endossa a existência do filme: colocar-se no lugar dos personagens ou estar o mais próximo possível disso. Afinal, a chegada da morte é a única certeza da vida: “vai acontecer com todo mundo e qualquer um”, já dizia o poeta. E o cinema norte-americano parece saber, como ninguém, como usar a sentimentalidade do público e jogar a favor disso. A CULPA É DAS ESTRELAS é o perfil de filme que busca as lágrimas, como buscava o bom e piegas cinema romântico dos anos oitenta feito para chorar: A ESCOLHA DE SOFIA, A FORÇA DO DESTINO, MARCAS DO DESTINO... entre outros. Os anos noventa tentou reviver os valores em alguns momentos, a última década também trouxe seus exemplares chorosos no qual, sem entrar na avaliação de seus valores cinematográficos, é quase impossível negar: são todos “filmes de mulherzinha”. E tendo um público direcionado, sabe-se que o filme de Shailene e Ansel, em tela interpretando os famosos Hazel Grace e Gus do best-seller literário homônimo, tem todo seu ciclo da narração caminhando por esse terreno choroso. É marcar no relógio: depois da primeira hora, mesmo sendo você o mais durão de todos, vai ficar sensibilizado com a história. Se for chorão, nem adianta tentar segurar as lágrimas que elas vão chegar. E, para quem aprecia no Cinema essa sua capacidade de nos colocar em contato com sensações que nem sempre esbarramos no dia-a-dia, o filme é um gracioso deleite. 


Para ver: A CULPA É DAS ESTRELAS (The Fault in Our Stars, 2014, de Josh Boone). Com Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Sam Trammel, Willem Dafoe, Nat Wolff.
Cotação:

domingo, 22 de junho de 2014


H-I-L-Á-R-I-O. Há muito, muito tempo uma comédia americana idiota (ok, nem tanto assim) não era responsável por gargalhadas homéricas emitidas dentro do cinema. Ok, também nem tanto tempo assim se você é um daqueles que aprecia as geniais bizarrices de Seth Rogen e sua turma em É O FIM, que estreou no ano passado. Mas dessa vez, a trupe do ator (que agora reúne Zac Efron, Dave Franco e a sensacional Rose Byrne) escalou o diretor Nicholas Stoller (que escreveu o bonitinho e divertido OS MUPPETS, de 2011) para embarcar em um filme sem limites para a diversão. Portanto, cuidado: se você se ofende facilmente com piadas de cunho sexual (pintos, pintos, pintos, peitos, masturbação e sexo – ou quase isso – e todos os fluidos que fazem parte do processo); piadas sobre drogas (maconha, cannabis, marijuana, muita fumaça e algumas doses de álcool) e infinitas referências politicamente incorretas, passe muito longe de uma sessão de VIZINHOS.

Todas as sacanagens fazem parte, basicamente, de dois universos: a família do casal vivido por Seth e Rose, pais da recém-nascida Stella; e a fraternidade dos universitários em que Zac e Dave presidem, que se mudam pra casa ao lado. As piadas, logicamente, rondam esses dois cenários e os conflitos que existem entre eles. Esquematicamente, o roteiro percorre uma sequência bastante lógica (‘apresentação do casal’, ‘apresentação dos universitários’, ‘tentativa de convivência’ e ‘guerra declarada’) que faz com que as piadas tenham boa fluência dentro das ações – o diretor chega a ensaiar alguns ótimos momentos com a câmera, como por exemplo, recriando a sensação de se estar bêbado e caminhar por um corredor estreito e cheio de luzes. A entrega de Seth, Rose, Zac e Dave aos papéis é impressionante – especialmente o casal. Os dois estão impecáveis como os pais divididos entre vida de adulto e o gozo das delícias da juventude sem cobranças (o duelo entre os dois estilos de vida é o grande assunto do filme, que também é construído a partir do olhar dos garotos, o que torna a produção ainda mais especial).

Apesar de mirar no público masculino, VIZINHOS é capaz de divertir aos montes qualquer espectador, desde que esqueça seus brios e pudores do lado de fora da sala de cinema.
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Para ver: VIZINHOS (Neighbors, 2014, de Nicholas Stoller). Com Seth Rogen, Rose Byrne, Zac Efron, Dave Franco, Christopher Mitz-Plasse.
Cotação:

quarta-feira, 11 de junho de 2014


Depois de fazer o melhor filme de super-heróis de histórias em quadrinhos do cinema – X-MEN 2, de 2003 – o diretor Bryan Singer abandonou o grupo na terceira parte e ensaiou um retorno como produtor de X-MEN: PRIMEIRA CLASSE, outro filmaço dos mutantes, realizado em 2011, com os célebres personagens apresentados em sua juventude. Motivação suficiente para sua volta à cadeira de diretor em X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO, cujo roteiro se vale de uma história originalmente publicada pela Marvel em 1981 - passada em um futuro remoto em que Kitty Pride e alguns poucos outros sobreviventes retornam ao exato momento anterior à destruição maciça dos mutantes através da criação dos robôs sentinelas.

Heróis de rostos consagrados e os novos herdeiros juntos, em uma única produção. Duas linhas narrativas, dois clímax. E embora Singer entregue uma grande diversão, com forte pano de fundo na história mundial, a fascinante ideia de se ter tudo em dobro fica devendo na comparação com seu último filme com os mutantes. Há uma aposta bastante simplista na narração, que cresce com suspense e sem surpresa em direção ao ponto chave: os mutantes se salvarão ou finalmente os homens conseguirão exterminar seus inimigos sobre-humanos? O desequilíbrio entre as duas linhas de ação começa quando, aproveitando ao máximo o momento de superexposição da maior estrela da Hollywood atual, Jennifer Lawrence, o roteiro alça a vilã Mística à protagonista da maior parte da trama – situada no passado em que Wolverine (novamente Hugh Jackman) retorna para convencer os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) a desmantelar o esquema do governo com a criação dos robôs que caçam os mutantes. Mística, cujo DNA se transforma em qualquer pessoa, é a chave que a raça humana precisa para combater qualquer poder mutante. Mas a sensação que se tem é de ‘mais do mesmo’: um retorno ao velho e burocrático debate entre as forças politica dos homens e os heróis mutantes (com direito a sequências de ação ao redor da mesa de reunião de figurões da política), agora permeados de pequenos artifícios que costuram ficção e realidade (o assassinato do presidente JFK, a Guerra do Vietnã, a China como a grande potência do futuro) e passado e futuro (personagens em formação, poderes ainda não completamente adquiridos, e a chance de encontrar novos mutantes). É claro que, dentro de um dorso narrativo bem mais comprido, não faltam boas sequencias para a trama em que Wolverine tenta salvar a vida dos mutantes - em especial uma acontecida na cozinha da Casa Branca, com a ajuda de um moleque que se move em velocidade sobre-humana, Peter, brilhantemente filmada por Singer.

O futuro esquecido, abandonado em quase todo o filme, volta com força em seus 40 minutos finais, onde é mantido com incrível tensão. As polarização global entre norte-americanos e chineses se tornam palco dos duelos que podem manter a raça de mutantes em ação ou dizimá-los definitivamente da Terra. Grandes muralhas orientais e ícones do poderio dos EUA se fragmentam diante do embate dos sentinelas e mutantes. A história passa a ganhar novo capítulo e um dos maiores enigmas da humanidade é revelado diante da plateia, após os créditos finais. Caminhos escritos para uma continuação, prometida para 2016. Novamente com Singer como diretor.

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Para ver: X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO (X-Men: Days of a Future Past, 2014, de Brian Singer). Com Hugh Jackmann, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Nicholas Hoult, Elen Page, Peter Dinklage, Ian Mckellen, Patrick Stewart, Even Peters
Cotação:


sábado, 31 de maio de 2014


MALÉVOLA é um produto Disney que cumpre quase sempre o prometido. É divertido sem exagerar nas histrionices, com algumas boas sequencias cheias de efeitos visuais atrativos e Angelina Jolie se esbaldando no papel da fada malvada abusando das caras, bocas e viradinhas de pescoço dignas de uma cantora pop alçada ao plano de “diva” (para delírio da crescente plateia que se manifesta dentro do cinema com interjeições e aplausos). Interessante mesmo é perceber que a grande aposta do filme é também seu maior risco: para recontar a história do conto “A Bela Adormecida” sob o ponto de vista da vilã, o estúdio investe no mesmo caminho do sucesso FROZEN, que ganhou o último Oscar de animação. A antagonista da Bela (interpretada com excessos de sorrisos pela atriz Elle Fanning) passa por uma transformação em sua personalidade, deixando-a mais próxima da condição humana – aquela que cai em desgraça e comete maldades, mas também é cheia de virtudes e boas intenções –, como a rainha Elsa. A ousadia que modifica a trama do filme inevitavelmente acaba por modificar partes do conto original, dando ao filme seu maior atrativo: romper limites, propor mudanças, ousar sobre o que já foi dito, fugir da representação literal. É muito, muito bacana quando um filme corre risco e foge da segurança das representações repetitivas e banais (ainda que o público mais ortodoxo esbraveje ao final da sessão – como aconteceu com o recente NOÉ, quando a plateia saía do cinema acusando o diretor Darren Aronofsky de heresia por conta das mudanças promovidas na história do profeta bíblico). 

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Para ver: MALÉVOLA (Maleficent, 2014, de Robert Stromberg). Com Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley.
Cotação: 


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Em REFÉM DA PAIXÃO o diretor e roteirista Jason Reitman abandona o cinismo e ironia de JUNO e JOVENS ADULTOS para realizar um excelente drama romântico e melancólico sobre Adele (Kate Winslet), uma dona de casa que foi abandonada pelo marido e vive com o filho adolescente, Henry, em um subúrbio americano. Certo dia, suas vidas pacatas se cruzam com a de um fugitivo da polícia, Frank (Josh Brolin), que se esconde na casa da família. Da aproximação entre o bandido e a mocinha depressiva nasce um relacionamento, a princípio tenso e ilegal, que transforma a vida de ambos, conduzido com extrema destreza e paixão por Reitman – que retoma o passado dos personagens para solidificar as situações do presente. Sensível e doce, mesmo se equilibrando em uma linha moral muito tênue, Reitman introduz uma narração que se propõe olhar para esse universo de fora pra dentro, mas sem abandonar os detalhes do que acontece dentro da casa – é o filho, já adulto (na voz de Tobey Maguire) que relembra em tom saudosista o final-de-semana em que ele e Adele estiveram sob a tutela de Frank. A maturidade da construção lembra bastante os caminhos que o diretor já percorreu com o também sensível e sóbrio, ainda que apaixonante, AMOR SEM ESCALAS, de 2009. Grande trabalho também de Kate Winslet, atuando entre a amargura e os pequenos sopros de vida que sua personagem recebe.

Para ver: REFÉM DA PAIXÃO (Labor Day 2013, de Jason Reitman). Com Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, Tom Lipinski, J.K. Simmons, James Van Der Beek.
Cotação:

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Hoje, 12 de maio, faz 20 anos que PULP FICTION, de Quentin Tarantino, foi exibido pela primeira vez, no Festival de Cannes de 1994.