Mostrando postagens com marcador Cinema europeu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cinema europeu. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014



Enquanto público desse cinema feito e visto nos dias de hoje, estamos acostumados com a narrativa encerrada em uma história contada por um personagem e/ou apresentada nos diálogos dos atores em cena. SOB A PELE não faz parte desse grupo e assisti-lo não é como assistir a qualquer filme em que nós, espectadores, recebemos e processamos determinada informação concreta. Mas também não se pode considerar que isto, aliado ao interessantíssimo formalismo visual do filme, o coloca no grupo das obras abstratas e completamente distantes de qualquer sentido racional. É nesse ínterim entre as duas situações que o diretor Jonathan Glazer constrói seu filme e dá ao público a oportunidade de escolher qual caminho tomar: estamos diante de uma reflexão artística que se afasta da ordem lógica para provocar seu público com novas sensações ou de um complexo trabalho de texto que instiga o público a buscar uma ordem lógica em uma trama aparentemente sem sentido?

Diante de um espectador aberto para uma infinidade de possibilidades, seja qual caminho tomado, SOB A PELE alcança uma grandiosidade impressionante. Em sua veia mais abstrata, apoiado por decisões plásticas que saltam aos olhos e ouvidos (que trilha sonora!), a saga da personagem vivida por Scarlett Johansson parece tatear uma representação onírica para versar sobre relacionamentos humanos e a queda de braço entre machos e fêmeas em condições (quase) animalescas que reverberam em seus comportamentos na sociedade. Já quem aposta na montagem do quebra-cabeça da razão parece comprar a ideia de que a personagem é um ser não humano (um alienígena? uma máquina?) que anda vitimando homens a seu bel prazer, roubando-lhes a essência da nossa raça – aquilo que estaria... sob a pele. E sim, o quebra-cabeça possui argumentos que o tornam incrivelmente bem articulado e faz muito sentido, para cada um dos elementos apresentados.

Em ambas as soluções, o que se vê de Glazer é um domínio absoluto sobre aquilo que de fato quer nos contar. As situações repetitivas da primeira parte do filme, ainda que cansativas, reforçam o ciclo da personagem principal, que tem o comportamento modificado após um evento nas ruas da cidade do interior da Escócia, onde o filme se passa. Essa ruptura fala muito sobre uma questão urbana interessantíssima que muito explica o assunto que Glazer discute: os relacionamentos, os valores e as posturas do ser sociável nos dias de hoje, nossa época atual. A sensacional cena final, com a personagem de Scarlett vagando por uma floresta de espinhos até descansar sobre o gelo – em meio a tudo que lhe acontece nesse intervalo – não poderia ser mais emblemática para o filme. 


Para ver: SOB A PELE (Under the Skin, 2014, de Jonathan Glazer). Com Scarlett Johansson, Adam Pearson, Paul Brannigan, Joe Szula. 
Cotação:

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Para os críticos da revista Sight and Sound, o americano BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE de Richard Linklater é o melhor filme do ano. A listagem completa dos #melhoresde2014 tem ainda os novos filmes de Jean-Luc Godard (França), Andrey Zvyagintsev (Rússia), Pedro Costa (Portugal) e Jonathan Glazer (Inglaterra) no #top5. 

segunda-feira, 1 de setembro de 2014


Com LUCY, o cineasta francês Luc Besson volta a pisar no terreno do thriller de ficção científica que, possivelmente, lhe rendeu sua maior fama internacional até os dias de hoje, com O QUINTO ELEMENTO. E, se tratando de um tema que conhece, encontra um modo bastante convincente para explorá-lo bem. O que o torna seu novo filme especial é que Besson escolhe um plot que de tanto dito por aí, quase já virou verdade (mesmo que ninguém nunca tenha sequer passado perto de comprová-lo): o mito de que o homem usa apenas 10% de seu potencial cerebral para toda e qualquer atividade que desempenhe.  E com a popularização de um ‘mito-quase-verdade’ nas mãos, o diretor brinca com as possibilidades que o amplo cenário se apresenta para o público, abrindo mão de máquinas e parafernálias tecnológicas em excesso.

A personagem título, uma moça oportunista vivida por Scarlett Johansson, é acidentalmente jogada no meio de um incidente que faz aumentar potencialmente sua atividade cerebral. A partir de então, ela entra em contato com possibilidades extraordinárias de ações que desafiam a ciência, a física e a lógica. Mas o recado que Besson quer dividir, depois de muita experimentação e diversão (perseguições, tiros e sequências de tirar o fôlego, como a que acontece dentro de um avião no ar), é que se talvez nossa inteligência tenha sucumbido diante dos inúmeros neurônios não utilizados, é que possivelmente os sentimentos humanos tenham algum complemento à arte de pensar - o que, de certa forma, explicaria as muitas falhas do roteiro.

E sob esse aspecto, é possível que o medo seja o centro de tudo aquilo que Besson deseja para construir sua personagem humana e existenciar sua raça. Através da ótima atuação de Scarlett, que aos poucos vai esquecendo seus limites para aceitar qualquer coisa, correndo contra o tempo, acelerada feito máquina, antecipando seu destino inerte; seja pelas boas inserções visuais que colam as sensações dos homens nas dos animais (novamente com o medo e a apreensão); ou pela progressão do passado, um dos momentos mais deslumbrantes do filme, que pode ser encarado como um movimento legitimador do ser vivo pela busca desenfreada pelo ultra conhecimento tecnológico que os ambientalistas já apontam como o princípio do fim, panorama que ironicamente Besson parece assinar embaixo.
___________________________________________________________________

Para ver: LUCY (idem2014, de Luc Besson). Com Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi-Min sik, Amr Waked).
Cotação

sexta-feira, 6 de junho de 2014

EU, MAMÃE E OS MENINOS, o filme-sensação na França em 2013, está para eles assim como MINHA MÃE É UMA PEÇA, protagonizado por Paulo Gustavo, está para o público e cinema brasileiro. Guillaume Gallienne escreveu, dirigiu e protagonizou essa comédia autobiográfica sobre seu relacionamento com sua mãe - inclusive, interpretando-a. O filme passou na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2013, estreou com grande público em outubro passado, e acabou gloriado no César (o maior prêmio do cinema francês), com 10 indicações e 5 troféus, o mais lembrado da festa. Apresentado como um espetáculo teatral transposto para a tela do cinema do começo ao fim, o filme tem uma divisão episódica durante toda a narração da vida do menino, que cresce com a lembrança de ser tratado por sua mãe como uma garota. Guillaume, o protagonista, desenvolve trejeitos e passa por todas as situações-clichês de quem descobre sua sexualidade: do susto inicial (tratado com ironia, uma vez que o menino realmente sempre achou que fosse uma garota e a partir de agora precisa começar a viver como um jovem homossexual) às sequencias situacionistas (a ida ao psiquiatra, o primeiro contato com um homem, a choque da descoberta de um 'mundo gay'). Sem charme, insosso e cheio de lugar-comum, é no mínimo curiosa essa recepção calorosa que o filme recebeu em seu país de origem. O filme fez parte da edição 2014 do Festival Varilux de Filme Francês, realizado em diversas cidades do país, no mês passado.

Para ver: EU, MAMÃE E OS MENINOS (Les garçons et Guillaume, à table!, 2013, de Guillaume Gallienne). Com Guillaume Gallienne, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger.
Cotação:

sábado, 10 de maio de 2014


A edição nº 75 do maior festival de cinema do mundo, o FESTIVAL DE CANNES, começa na próxima quarta-feira, dia 14 de maio. Já assistiu a todos os filmes que fizeram parte da edição de 2013? Relembre aqui cada um dos concorrentes.

sexta-feira, 25 de abril de 2014



Os filmes HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO (idem, 2014), do brasileiro Daniel Ribeiro, e GAROTOS (Jongens, 2014), da holandesa Mischa Kamp, fizeram sua estreia mundial praticamente juntos – em fevereiro passado, no Festival de Berlim, e na TV de seu país de origem, respectivamente – e mesmo vindos de cinematografias distintas, evocam em suas discussões a descoberta sexual de seus protagonistas adolescentes como representação do momento da conquista da liberdade individual. Esse interessante diálogo entre as obras avança, ainda, para dentro de suas formulações e composições, estabelecendo caminhos similares que são propostos por seus diretores, ainda que preservadas suas particularidades. Vejamos:


- A sutileza do primeiro amor -

Ambos os filmes podem ser encarados como alegorias para a história do primeiro amor da vida de qualquer moleque, que nos cinemas ficou famoso nos anos noventa com a celebração de Macaulay Culkin e Anna Chlumsky em MEU PRIMEIRO AMOR (My Girl, 1991, de Howard Zieff). Mergulhados em uma narrativa clássica, os dois filmes apostam na sutileza do relacionamento entre seus protagonistas como manejo da construção cenográfica. A empatia e a espontaneidade das ações que acompanham a formação desse sentimento acaba por reduzir e desestimular rótulos e estereótipos sobre suas paixões: o fato de Leo e Gabriel estamparem o pôster do filme brasileiro, enquanto Sieger e Marc estarem lado a lado na produção holandesa é mero acaso. Para Daniel Ribeiro e Mischa Kemp, não há uma causa a ser defendida ou uma bandeira que precisa ser levantada. É através da naturalidade das situações que surge o encantamento entre os garotos.

O filme brasileiro apresenta como pano de fundo o cotidiano escolar dos adolescentes Leonardo e Gabriel, às voltas com trabalhos escolares, festas e decisões sobre o futuro. Leo, que é deficiente visual, se apaixona pelo colega recém-chegado à escola, ao passo que lida com a atribulada relação com Giovana, sua melhor amiga. O filme se mostra um pouco mais interessado em desenvolver uma problemática sobre o assunto ao complexar a trama com uma discussão bem mais textual a respeito da liberdade que anseia a idade, com diálogos que se debruçam nas questões que envolvem os obstáculos de Leo: a cegueira, a vontade de romper a dependência dos pais e a aceitação do desejo. Já no exemplar holandês, o cenário é o time de atletismo em que Sieger é recém-incorporado. Ao encontrar Marc, o atleta mais importante da equipe, o garoto desenvolve uma amizade imediata que funciona como refúgio para a carência afetiva familiar que possui. O filme aposta em uma menor intervenção de diálogos na trama e abusa de imagens ora mais contemplativas, ora cheia de indução sobre os acontecimentos, reforçando a confusão com a presença de outra garota, Stef – mas escapando, quase sempre, do dramalhão. A panoramização buscada pelos diretores para refletir a liberdade da paixão em suas obras reflete, em vários momentos, na adoção de uma câmera em planta baixa, como se buscando contemplar no quadro da câmera toda a cena possível (tal qual faz um arquiteto, ao estudar a gênese de um ambiente).
  


- Entre um passeio de bicicleta, o beijo roubado -

Os universos pautados pela sutileza são fortemente norteados por dois importantes elementos comuns aos dois filmes: o beijo e o passeio de bicicleta. O primeiro, equivalente à representação maior da paixão, momento de entrega ao sentimento e, para um adolescente, seu primeiro contato com o universo romântico do mundo dos adultos, surge em momentos distintos no dorso narrativo de cada um dos filmes, ditando as particularidades de ritmo de cada obra. Enquanto o filme brasileiro aposta numa paixão que chega a transitar pelo suspense (“isso também está acontecendo com o Gabriel?”, poderia se questionar Leo) até a confirmação daquilo que todo o tempo foi sugestionado (com um beijo já bem perto do fim), o filme holandês aposta numa surpresa de pronto (um beijo no terço inicial do filme), para só depois situar-se no desenvolvimento do foco principal da trama. Nas duas produções, no entanto, ele assume sua face mais atraente: surge roubado. O outro elemento, os passeios de bicicleta, de presença constante nas narrativas, mas que também rende pequenas sequências memoráveis, é apresentado como símbolo dessa liberdade desejada pelos protagonistas, que ao longo dos filmes ganham contornos diferentes (bem mais pueril para os personagens de HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO e transformador para os de GAROTOS).

Ao som de Belle e Sebastian e M83, Daniel Ribeiro e Mischa Kemp encerram suas histórias de liberdade reforçando uma ideia de continuidade (“o que acontece a partir de agora?”, possivelmente Sieger disse a Marc) – como se a empatia criada entre o público e seus personagens possibilitasse uma existência para além do apresentado em seus filmes, cujas escolhas (muitas vezes questionáveis), solidificassem o desejo maior do espectador, de perpetuação de momentos tão agradáveis dentro do cinema.


quinta-feira, 17 de abril de 2014




Olivier DAHAN
GRACE DE MONACO
(filme de abertura)


COMPETIÇÃO OFICIAL:




Olivier ASSAYAS
SILS MARIA
Bertrand BONELLO
SAINT LAURENT
Nuri Bilge CEYLAN
KIS UYKUSU
David CRONENBERG
MAPS TO THE STARS
Jean-Pierre DARDENNE e Luc DARDENNE
DEUX JOURS, UNE NUIT
Xavier DOLAN
MOMMY
Atom EGOYAN
CAPTIVES
Jean-Luc GODARD
ADIEU AU LANGAGE
Michel HAZANAVICIUS
THE SEARCH
Tommy Lee JONES
THE HOMESMAN
Naomi KAWASE
FUTATSUME NO MADO
Mike LEIGH
MR. TURNER
Ken LOACH
JIMMY’S HALL
Bennett MILLER
FOXCATCHER
Alice ROHRWACHER
LE MERAVIGLIE
Abderrahmane SISSAKO
TIMBUKTU
Damian SZIFRON
RELATOS SALVAJES
Andrey ZVYAGINTSEV
LEVIATHAN


UN CERTAIN REGARD:


Marie AMACHOUKELI, Claire BURGER e Samuel THEIS

  PARTY GIRL (1st film)
(filme de abertura)

Lisandro ALONSO
SIN TITULO
Mathieu AMALRIC
LA CHAMBRE BLEUE
Asia ARGENTO
INCOMPRESA
Kanu BEHL
TITLI (1st film)
Ned BENSON
ELEANOR RIGBY
Pascale FERRAN
BIRD PEOPLE
Ryan GOSLING
LOST RIVER (1st film)
Jessica HAUSNER
AMOUR FOU
Rolf de HEER
CHARLIE’S COUNTRY
Andrew HULME
SNOW IN PARADISE (1st film)
July JUNG
DOHEE-YA (1st film)
Panos KOUTRAS
XENIA
Philippe LACÔTE
RUN
Ruben ÖSTLUND
TURIST
Jaime ROSALES
HERMOSA JUVENTUD
WANG Chao
FANTASIA
Wim WENDERS e
 Juliano RIBEIRO SALGADO
THE SALT OF THE EARTH
Keren YEDAYA
HARCHECK MI HEADRO


domingo, 16 de março de 2014


Em determinado momento dessa segunda parte de NINFOMANÍACA, a protagonista Joe parece cabal em sua análise sobre a participação do personagem de Stellan Skarsgard (que me parece um alter-ego do diretor Lars Von Trier) no filme: "acho que essa foi uma das suas digressões mais fracas". E, infelizmente, foi. Lars nunca foi unanimidade no mundo cinematográfico mas certamento já inquietou os mais interessados em um cinema que foge do piloto automático. Mas se a primeira parte do filme pecava pelo desarranjo de metáforas espalhas ao longo de suas duas horas de duração, o mesmo não se pode concluir com esse encerramento, bem melhor em relação ao apresentado na primeira metade - ainda distante do melhor cinema de Von Trier. 

O Volume 2 começa sua narrativa exatamente do ponto em que o Volume 1 se findou e leva o espectador até o início da ação desse mesmo volume, que começava com a personagem de Charlotte Gainsbourg subjugada num beco parisiense. Lars oferece um discurso algumas vezes aborrecido e pedante sobre o drama de sua protagonista, com insinuações pretensiosas e desconexas, mas finalmente assume partido sobre aquilo que apresenta (justamente o que faltava no panorama sem rumo do filme inicial), e não me parece vergonhoso que queira defender o direito de sua personagem de entregar-se ao sexo como bem entende - recebendo as pedras da sociedade que a julga todo o tempo. É uma condição que leva a uma escolha e somente esta (e suas ações e consequências) e não aquela, pode ou deve ser questionada. O final do filme, particularmente bastante interessante, justifica todos os momentos vividos por Joe em suas duas partes.

E mesmo com todas as oscilações das narrativas capitulares, o diretor traz para a tela dois momentos grandiosos: a releitura do inesquecível prólogo do excepcional ANTICRISTO, dirigido por ele mesmo em 2009, ao som da ópera Lascia ch'io Pianga (que acredito poder revelar mais que uma analogia simples - lembram que a Charlotte e Dafoe eram simplesmente "ele" e "ela"?); e a regravação de "Hey Joe", que toca nos crédito finais, na voz super sensual da protagonista Charlotte Gainsbourg. 
_____________________________________________________________________

Para ver: NINFOMANÍACA - VOL. 2 (Nymphomaniac: Vol. II, 2014, de Lars Von Trier). Com Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Shia LaBeouf, Christian Slater, Willem Dafoe, Jamie Bell.
Cotação:



_____________________________________________________________________
NINFOMANÍACA - VOL. 2 está em cartaz no Cine Jardins. Confira os horários.

sábado, 15 de março de 2014

ERNEST E CELESTINE. Essa animação francesa, uma pequena joia feita na contracorrente daquilo que o cinema norte-americano costuma produzir, acabou finalista do Oscar de Melhor Animação em 2014. Tem uma concepção visual belíssima, apoiada nas composições estéticas e visuais das pinturas impressionistas do século XIX (de volumes completamente bidimensionais, sem contornos nítidos e com lindos efeitos de luz e sombra a partir da utilização das cores). Tal escolha não se dá ao acaso, já que a forma serve ao conteúdo, que tem por objetivo celebrar um dos sentimentos mais nobres: a amizade constituída entre seres de morfologia e valores extremamente opostos - uma ratinha e um urso. Nesse universo delicado e imerso em emoções genuinamente humanas, os dois se encontram e da amizade proibida entre as raças, surge uma grande história a ser contada. Daqueles filmes doces e divertidos, pra ficar com sorriso no rosto depois de assisti-lo.

Para ver: ERNEST E CELESTINE (Ernest et Célestine 2013, de Stéphane Aubier e Vincent Patar). Com  as vozes de Lambert Wilson E Pauline Brunner
Cotação: 

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014


PHILOMENA aposta na ciclicidade da história do bebê roubado da personagem título, vivida por Judi Dench, como dorso principal de sua narrativa, o que ajuda a legitimar a história real, que se contada com bem menos cuidado do que o diretor Stephen Frears trata, certamente cairia em um dramalhão. Vejamos: jovem freira transa com um cara numa noite e engravida; as irmãs do Convento tiram o filho de seu convívio, o menino é adotado por uma família de outro país, e depois de 50 anos a mãe, junto a um jornalista decadente, inicia a busca pelo garoto, e descobre que ele se tornou importante figura política, ao mesmo tempo que manteve às escuras um sólido relacionamento homossexual, findado por conta de sua morte prematura, após adquirir o vírus da AIDS. O diretor inglês aposta firme em seus atores e a direção caminha estabelecendo um laço forte entre eles e se apoiando em ambos, mas sem exagerar nos sentimentalismos ou nos posicionamentos clichês, o que engrandece bastante a trama, tratando o assunto com impressionante sobriedade.
_____________________________________________________________________________________________

Para ver: PHILOMENA (idem, 2013, de Stephen Frears). Judi DenchSteve CooganSophie Kennedy ClarkMare Winningham
Cotação: 


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Com a epopeia de Adèle no alardeado AZUL É A COR MAIS QUENTE, que arrebatou a Palma de Ouro em Cannes na edição de 2013, o diretor Abdellatif Kechiche implode sua protagonista de dentro pra fora, durante os anos de amadurecimento sexual e sentimental da jovem, próximo aos dezesseis-dezoito anos, revelando sua atração por mulheres. Do primeiro olhar de canto de olho para uma amiga da escola, passando ao primeiro beijo ("de brincadeira"), a constatação de que é diferente da maioria das garotas de sua idade a leva ao afastamento dos meninos, ao distanciamento da família (mesmo morando debaixo do mesmo tempo) e ao recolhimento que busca respostas que quase imediatamente a levam a um mundo inicialmente desconhecido - personificadas por Emma, a menina dos cabelos azuis - que formará o restante de sua personalidade, Se a naturalidade da proposta de Kechiche ao lidar com um assunto tão tabu de forma tão sincera choca com as provocantes, longas e corajosas cenas de sexo que a interprete Adèle Exarchopoulos e sua companheira de tela Léa Seydoux fazem, isso também justifica a necessidade do autor em tratar o assunto nesses termos. As duas atrizes brilham, e não foi por acaso que pela primeira vez o festival francês consagrou duas atrizes com a Palma de Ouro (além do filme).

Como o título original indica ("La vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2") o diretor e roteirista propõe uma construção narrativa sem segmentação para os dois capítulos da vida da personagem, que poderiam ser chamados de antes e depois de conhecer Emma. Mas de fato, o que temos são três momentos em cena: a descoberta da sexualidade da personagem, seu romance e o pós-relacionamento. É tudo lindo e de uma coragem formidável, que como todo grande filme, merece ser recebido de peito aberto e sem pressão. 

_________________________________________________________________
Para ver: AZUL É A COR MAIS QUENTE (La vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2, 2013, de Abdellatif Kechiche). Com Adèle ExarchopoulosLéa SeydouxBenjamin Siksou.
Cotação: 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

NINFOMANÍACA é o filme-sensação de 2014, inclusive aqui em Vitória. Ingressos esgotados com dias de antecedência e muita procura não costumam fazer parte do currículo de Lars Von Trier. Mas o resultado fica bastante aquém desse furor. Passada a frustração inicial de perceber que o filme é um produto vendido pela capa e que é impossível negar que o marketing e a publicidade souberam empurrar o filme para muito além de um público que não é o do cinema de Lars  (o que particularmente acho muito bom), fica um gostinho agridoce pelos caminhos percorridos pela produção. Aliando um tema interessantíssimo a uma proposta bastante particularizada ao cinema do diretor (narrativa capitular, argumentos metafóricos), o filme se apresenta como uma tentativa muito mediana de mostrar e desvendar os fatos que fazem de Joe (Charlotte Gainsbourg) uma ninfomaníaca - o roteiro, em flashback, mostra a jornada da protagonista desde seu primeiro contato com o sexo, aos 2 anos, até os dias atuais, quando é encontrada subjulgada em becos imundos em situação degradante por conta do distúrbio (se é que assim pode ser diagnosticado). Ao que tudo indica, o esvaziamento da proposta (que não quer dizer falta de cenas de sexo, como me pareceu que as primeiras críticas do filme apunhalaram) pode ser explicada pela ruptura que parece haver entre os dois volumes do filme (o que só pode ser confirmado depois de assistir ao Vol. 2, com estreia prevista para este primeiro semestre de 2014), que perde ritmo e carece de corte (inclusive textual) para se chegar ao patamar da habitual profundidade dos temas defendidos por Von Trier em seus filmes anteriores. Falta densidade ao dorso que envolve Joe e o ouvinte Stellan Skarsgard (que ouve as lembranças com um ar de "lulismo" - fazendo muitas metáforas inconsistentes e rasteiras, às vezes vergonhosas), mas também sobra ousadia nas piadas que nem sempre estão ali para suavizar a discussão; nas boas e pesadas atuações (típicas do modo Von Trier de guiar seu elenco); e na composição da personagem de Uma Thurman, Mrs. H., uma esposa trocada pela amante, mergulhada em sarcasmo e ironia destacantes, que nasce tão heroína quanto outro grande papel da atriz, a Mia Wallace de "Pulp Fiction". 
_____________________________________________________________________________________________

Para ver: NINFOMANÍACA - VOL. 1 (Nymphomaniac, 2014, de Lars Von Trier). Com Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgard, Uma Thurman, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater.
Cotação:   2.5 estrelas


_____________________________________________________________________________________________

NINFOMANÍACA - VOL. 1 está em cartaz no Cine Jardins. Confira os horários.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013


Há uns meses atrás, quando comentei sobre DENTRO DA CASA, filme de 2012 do francês François Ozon que estreou no Brasil no primeiro semestre, fiz uma breve abertura a respeito da velocidade com que o cineasta produz novas obras e versatilidade de fazer bons filmes em diversos gêneros. Pois eis que JOVEM E BELA, o filme de 2013 (que inclusive fez parte da seleção oficial do Festival de Cannes deste ano), aporta nos cinemas brasileiros neste fim-de-ano (se você correr aos cinemas, é bem capaz de encontrá-lo ainda) e mais (bem mais) que essa sensação de se deparar com um workaholic por detrás das telas, fica uma grande certeza: que baita diretor que o Ozon é! Não que precisasse provar qualquer coisa (Os amantes Criminosos, Swimming Pool, 8 Mulheres, Amor em Cinco Tempos e O Tempo Que Resta estão aí para dizer isso), mas JOVEM E BELA é um assombro de filme, e filmado com uma suavidade ímpar e sem necessidade de arrojos narrativos que chega a impressionar – jamais negarei que mexer na condução linear de uma narrativa é um dos artifícios mais lindos que um cineasta pode fazer (abusando dos elementos visuais de composição dela, fica ainda melhor). Mas Ozon não precisa. Ele tem Marine Vacth como protagonista e, sabiamente, deposita em seus ombros o olhar de uma trama que só mesmo os europeus (especialmente os de Paris e arredores) tem culhões para filmar: uma adolescente de dezessete anos, de classe média alta e vida ajustada, sem qualquer traço de paixão pelos garotos de sua idade que decide... se prostituir. Sem objetivos financeiros, sem motivos imediatos. A belíssima Isabelle, quase ao acaso, decide transgredir as regras da moralidade social e embarca num processo às escuras, que obviamente vai explodir e emplodir sua família junto. Ozon é perspicaz e explora a sensualidade dos personagens (não só de sua protagonista) e situações ao máximo, sugestionando acontecimentos que deixam o espectador com todos os questionamentos possíveis que elevam o potencial crítico da trama. E sendo repetitivo: impressiona o quanto Ozon explora sua Isabelle, que sai do olhar angelical e juvenil como a adolescente de ensino médio para projetar-se em salto alto e saia colada nos quadris sobre as calçadas das ruas parisienses, adentrando solenemente pelos halls dos hotéis mais nobres da cidade, indo ao encontro dos mais diferentes homens, nos muitos quartos a sua espera. 
 _____________________________________________________________________
Para ver: JOVEM E BELA (Jeune e Jolie, 2013, de François Ozon). Com Marine Vacth, Géraldine Pailhas, Frédéric Pierrot.
Cotação:

_____________________________________________________________________
JOVEM E BELA está em cartaz no Cine Jardins. Confira os horários.