domingo, 21 de dezembro de 2014


Abraçado em todo o mundo desde sua estreia, BOYHOOD, o filme mais recente do diretor Richard Linklater é uma graciosa surpresa que vai na contramão do cinema comumente feito nos dias atuais, principalmente nos Estados Unidos. Ao filmar a travessia de um garoto da infância até o início de sua juventude, Linklater opta por uma questão estruturalista que se destaca pela ousadia: a passagem do tempo para o protagonista e demais personagens da história não é mera questão de fade in/ fade out e uma revisão na maquiagem no rosto dos atores. A produção foi filmada ao longo de doze anos, em trinta e seis dias, e o amadurecimento e envelhecimento dos personagens coincide com o tempo cronológico dos atores. Com isso, Linklater propõe uma experiência praticamente única no cinema, dando a nós, público, a chance de acompanhar de modo muito particular o menino Ellar Coltrane avançar dos seis aos dezoito anos de idade. E isso já seria suficiente para fazer de BOYHOOD um grande filme. Mas o diretor vai além e, sobreprujando esse aspecto mais formalista do filme, subverte novamente as regras do jogo cinematográfico e suprime de sua obra qualquer cadeia que envolva a sequência epílogo-clímax-prólogo e deixa para o espectador, durante 2 horas e 45 minutos de exibição, o melhor dos eventos cotidianos da vida de Mason e sua família. Não há uma cena que se destaque ou um diálogo que ganhe contornos maiores que os anteriores.

As sensações que tínhamos ao assistir a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite em sequência se confirmam de uma só vez em BOYHOOD: as rugas nos rostos de Ethan Hawke e Julie Delpy dão lugar aos traços adultos que se ensaiam na face do menino protagonista, à medida que adentramos em seu universo de modo bastante íntimo, acompanhando a formação de sua personalidade e o surgimento de seus valores, ideais, sonhos e desejos. A naturalidade das situações aqui são ainda mais maiores que aquelas apresentadas na trilogia acima citada, como se o aspecto documental tomasse conta desse corpo ficcional que Linklater constrói. Lidar com o tempo fora de cena talvez tenha sido uma das maiores dificuldades da produção. O que,  provavelmente, tenha feito com que o roteiro tenha sido construído somente após o último take filmado (o diretor mais uma vez mudando a ordem das coisas) e explique o único senão da obra: acabamos seduzidos pelas imagens aparentemente evasivas do dia-a-dia, mas sentimos falta do texto mais apurado e do olhar doce e melancólico sobre a vida que a criança e o jovem Mason carrega mas não parece dividir com o público para além de suas feições.  

Numa época em que o cinema está mais acostumado a reciclar fórmulas já desgatadas – que algumas vezes dão certos e em outras não -, é gratificante se deparar com um filme que não busca o caminho fácil.



Para ver: BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Boyhood, 2014, de Richard Linklater). Com Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater.
Cotação:

sábado, 13 de dezembro de 2014

A divulgação dos indicados ao Globo de Ouro 2015 parece ter sacramentado alguns nomes, colocado na disputa outros que pareciam sair do time e de fato retirar algumas apostas na lista de melhores do ano.


Boyhood e Birdman despontam como os favoritos da temporada, acompanhados pelas ascensões de O Jogo da Imitação, A Teoria de Tudo e Selma (cuja diretora, Ava Duvernay, se tornou a primeira diretora negra a concorrer ao prêmio em sua categoria). O Grande Hotel Budapeste e Garota Exemplar também ressurgem como boas apostas para a disputa do Oscar, que só terá seus indicados em janeiro. 

Para os cinéfilos apaixonados pelas premiações e tarados pela 'previsão' dos indicados ao Oscar, boas análises foram feitas nos blogs Filmes do Chico, Termômetro Oscar e no Awards Daily

Os indicados nas principais categorias do cinema:

Melhor Filme - Drama
"Boyhood"
"Foxcatcher"
"O jogo da imitação"
"Selma"
"A teoria de tudo"

 Melhor Filme - Comédia ou musical
"Birdman"
"O grande hotel Budapeste"
"Caminhos da floresta"
"Pride
"Um santo vizinho"

Melhor Atriz - Drama
Jennifer Aniston ("Cake")
Felicity Jones ("A teoria de tudo")
Julianne Moore ("Still Alice")
Rosamund Pike ("Garota exemplar")
Reese Witherspoon ("Livre")

Melhor Ator – Drama
Steve Carell ("Foxcatcher")
Benedict Cumberbatch ("O jogo da imitação")
Jake Gyllenhaal ("O abutre")
David Oyelowo ("Selma")
Eddie Redmayne ("A teoria de tudo")

Melhor Atriz – Comédia ou musical
Amy Adams ("Big eyes")
Emily Blunt ("Caminhos da floresta")
Helen Mirren ("A 100 passos de um sonho")
Julianne Moore ("Mapa para as estrelas")
Quvenzhané Wallis ("Annie")

Melhor Ator - Comédia ou musical
Ralph Fiennes ("O grande hotel Budapeste")
Michael Keaton ("Birdman")
Bill Murray ("Um santo vizinho")
Joaquin Phoenix ("Vício inerente")
Christoph Waltz ("Big eyes")

Melhor Ator Coadjuvante
Robert Duvall ("O juiz")
Ethan Hawke ("Boyhood")
Edward Norton ("Birdman")
Mark Ruffalo ("Foxcatcher")
J.K. Simmons (Whiplash")

Melhor Atriz Coadjuvante
Patricia Arquette ("Boyhood")
Jessica Chastain ("A Most Violent Year")
Keira Knightley ("O jogo da imitação")
Emma Stone ("Birdman")
Meryl Streep ("Caminhos da floresta")

Melhor Diretor
Wes Anderson ("O grande hotel Budapeste")
Ava Duvernay ("Selma")
David Fincher ("Garota exemplar")
Alejandro González Iñárritu ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")

Melhor Roteiro
Wes Anderson ("O grande hotel Budapeste")
Gillyan Flinn ("Garota exemplar")
Alejandro González Iñárritu ("Birdman")
Richard Linklater ("Boyhood")
Graham Moore ("O jogo da imitação")

Melhor Animação
"Operação Big Hero"
"Festa no céu"
"Os Boxtrolls"
"Uma aventura Lego"
"Como treinar seu dragão 2"

Melhor Filme Estrangeiro
"Força Maior" (Suécia)
"Gett" (Israel, Alemanha, França)
"Ida" (Polônia)
"Leviatã" (Rússia)
"Tangerines" (Estônia)

Melhor Trilha Original
Johann Johannsson – "A teoria de tudo"
Alexandre Desplat – "O jogo da imitação"
Trent Reznor & Atticus Ross – "Garota exemplar"
Antonio Sanchez – "Birdman"
Hans Zimmer – "Interestelar"

Melhor Canção Original
"Big Eyes" – "Big Eyes" 
"Glory" – "Selma"
"Mercy Is" – "Noé" 
"Opportunity" – "Annie"
"Yellow Flicker Beat" – "Jogos Vorazes: A esperança – Parte 1" 


O anúncio dos vencedores acontecerá no dia 11 de janeiro de 2015.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Os indicados ao Screen Actor Guild 2014, o prêmio do Sindicato dos Atores norte-americanos que elege os melhores do anos:




ELENCO
Birdman
Boyhood - Da Infância à Juventude
O Grande Hotel Budapeste
O Jogo da Imitação
A Teoria de Tudo

ATRIZ PRINCIPAL
Jennifer Aniston - Cake
Felicity Jones - A Teoria de Tudo
Julianne Moore - Still Alice
Rosamund Pike - Garota Exemplar
Reese Witherspoon - Livre

ATOR PRINCIPAL
Steve Carell - Foxcatcher
Benedict Cumberbatch - O Jogo da Imitação
Jake Gyllenhaal - O Abutre
Michael Keaton - Birdman
Eddie Redmayne - A Teoria de Tudo

ATRIZ COADJUVANTE
Patricia Arquette - Boyhood
Keira Knightley - O Jogo da Imitação
Emma Stone - Birdman
Meryl Streep - Caminhos da Floresta
Naomi Watts - St. Vicent

ATOR COADJUVANTE
Robert Duvall - O Juiz
Ethan Hawke - Boyhood
Edward Norton - Birdman
Mark Ruffalo - Foxcatcher
J.K. Simmons - Whiplash


As análises sobre as indicações, que fazem parte da temporada de premiação pré-Oscar, sempre interessante para os fãs que curtem a disputa - que é quase uma Copa do Mundo do cinema - estão feitas pelo site TERMÔMETRO DO OSCAR.


Magnólia, 1999, de Paul Thomas Anderson. Do Out There Films.

A briga pelo prêmio de melhor filme do ano nos EUA continua apresentando um claro favorito na categoria principal: BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE foi escolhido o preferido nas associações dos críticos de Los Angeles, Boston e Washington. O diretor do filme, Richard Linklater, também foi eleito o melhor nas três guildas. Já nos prêmios de atuação não há unanimidade: Tom Hardy (Locke) e Michael Keaton (Birdman) fcaram com os prêmios principais para os atores masculinos; enquanto Julianne Moore (Still Alice), Marion Cottillard (Dois Dias, Uma Noite) e Patricia Arquette (Boyhood) ficaram os prêmios de atuação feminina; Patricia foi lembrada novamente na categoria de atriz coadjuvante, junto com Emma Stone (Birdman) e a polonesa Agata Kuleszka (Ida). O ator J.K. Simmons, de Whiplash, ficou com o prêmio de ator coadjuvante do ano nas três seleções.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014



Os dez melhores filmes do ano (em ordem alfabética) para o American Film Institute:


Sniper Americano
("American Sniper", dirigido por Clint Eastwood)

Homem-Pássaro
("Birdman", dirigido por Alejandro González Iñárritu)

Boyhood - Da Infância à Juventude
("Boyhood", dirigido por Richard Linklater)

Foxcatcher - A História Que Chocou o Mundo
("Foxcatcher", dirigido por Bennett Miller)

O Jogo da Imitação
("The Imitation Game", dirigido por Morten Tyldum)

("Interstellar", dirigido por Christopher Nolan)

Caminhos da Floresta
("Into the Wood", dirigido por Rob Marshall)

O Abutre
("Nightcrawler", dirigido por Dan Gilroy)

Selma
("Selma", dirigido por Ava DuVernay)

Invencível
("Unbroken", dirigido por Angelina Jolie)

Whiplash - Em Busca da Perfeição
("Whiplash", dirigido por Damien Chazelle)


sábado, 6 de dezembro de 2014


Nos EUA, a Associação dos Críticos de Nova York já havia premiado BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (de Richard Linklater) como o melhor filme do ano, enquanto a National Board of Review escolheu A MOST VIOLENT YEAR (de J.C. Chandor). Agora é a vez da Associação dos Críticos de Boston embaralhar ainda mais a 'brincadeira': para eles, SNOWPIERCER, primeiro filme americano do diretor sul-coreano Joon-Ho Bong é o melhor de 2014. 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014



Enquanto público desse cinema feito e visto nos dias de hoje, estamos acostumados com a narrativa encerrada em uma história contada por um personagem e/ou apresentada nos diálogos dos atores em cena. SOB A PELE não faz parte desse grupo e assisti-lo não é como assistir a qualquer filme em que nós, espectadores, recebemos e processamos determinada informação concreta. Mas também não se pode considerar que isto, aliado ao interessantíssimo formalismo visual do filme, o coloca no grupo das obras abstratas e completamente distantes de qualquer sentido racional. É nesse ínterim entre as duas situações que o diretor Jonathan Glazer constrói seu filme e dá ao público a oportunidade de escolher qual caminho tomar: estamos diante de uma reflexão artística que se afasta da ordem lógica para provocar seu público com novas sensações ou de um complexo trabalho de texto que instiga o público a buscar uma ordem lógica em uma trama aparentemente sem sentido?

Diante de um espectador aberto para uma infinidade de possibilidades, seja qual caminho tomado, SOB A PELE alcança uma grandiosidade impressionante. Em sua veia mais abstrata, apoiado por decisões plásticas que saltam aos olhos e ouvidos (que trilha sonora!), a saga da personagem vivida por Scarlett Johansson parece tatear uma representação onírica para versar sobre relacionamentos humanos e a queda de braço entre machos e fêmeas em condições (quase) animalescas que reverberam em seus comportamentos na sociedade. Já quem aposta na montagem do quebra-cabeça da razão parece comprar a ideia de que a personagem é um ser não humano (um alienígena? uma máquina?) que anda vitimando homens a seu bel prazer, roubando-lhes a essência da nossa raça – aquilo que estaria... sob a pele. E sim, o quebra-cabeça possui argumentos que o tornam incrivelmente bem articulado e faz muito sentido, para cada um dos elementos apresentados.

Em ambas as soluções, o que se vê de Glazer é um domínio absoluto sobre aquilo que de fato quer nos contar. As situações repetitivas da primeira parte do filme, ainda que cansativas, reforçam o ciclo da personagem principal, que tem o comportamento modificado após um evento nas ruas da cidade do interior da Escócia, onde o filme se passa. Essa ruptura fala muito sobre uma questão urbana interessantíssima que muito explica o assunto que Glazer discute: os relacionamentos, os valores e as posturas do ser sociável nos dias de hoje, nossa época atual. A sensacional cena final, com a personagem de Scarlett vagando por uma floresta de espinhos até descansar sobre o gelo – em meio a tudo que lhe acontece nesse intervalo – não poderia ser mais emblemática para o filme. 


Para ver: SOB A PELE (Under the Skin, 2014, de Jonathan Glazer). Com Scarlett Johansson, Adam Pearson, Paul Brannigan, Joe Szula. 
Cotação:
A National Board of Review, uma das mais antigas e prestigiadas associações de críticos de cinema nos Estados Unidos, anunciou sua tradicional lista de melhores filmes do ano, como já faz desde a década de 30.

O filme A MOST VIOLENT YEAR, do diretor J.C. Chandor (de "Margin Call" e "Até o Fim"), foi eleito o melhor filme do ano. O filme se passa em Nova York e mostra um casal de imigrantes vividos por Oscar Isaac e Jessica Chastain, que tentam prosperar nos negócios mas esbarram no poder paralelo que controla a cidade naquele período. Os dois atores ainda foram eleitos nas categorias de ator principal e atriz coadjuvante. 



Filme:  A Most Violent Year
Diretor:  Clint Eastwood – American Sniper
Ator:  Oscar Isaac – A Most Violent Year e Michael Keaton – Birdman
Atriz: Julianne Moore – Still Alice
Ator Coadjuvante:  Edward Norton – Birdman
Atriz Coadjuvante:  Jessica Chastain – A Most Violent Year
Roteiro Original:  Phil Lord & Christopher Miller – The Lego Movie
Roteiro Adaptado:  Paul Thomas Anderson – Inherent Vice
Animação:  How to Train Your Dragon 2
Filme Estrangeiro:  Wild Tales
Documentário:  Life Itself
Elenco:  Fury

A lista completa dos melhores do ano em todas as categorias e o #top10 está disponível no site oficial da associação.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Para os críticos da revista Sight and Sound, o americano BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE de Richard Linklater é o melhor filme do ano. A listagem completa dos #melhoresde2014 tem ainda os novos filmes de Jean-Luc Godard (França), Andrey Zvyagintsev (Rússia), Pedro Costa (Portugal) e Jonathan Glazer (Inglaterra) no #top5. 

Os #melhoresde2014 para a revista Cahiers du Cinèma:



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Em INTERESTELAR, a Terra vive um futuro apocalíptico imersa em tempestades de areia e a formação de territórios áridos que aos poucos vão dizimando a população. O destino da humanidade pode estar em planetas e galáxias distantes e uma operação é montada para enviar uma equipe, chefiada pelo ator Matthew McConaughey, para avaliar três possíveis “novas casas” para a população. É nesse cenário devastador da Terra e na imensidão do caos do Universo e suas leis ainda pouco conhecidas que o diretor Christopher Nolan faz seu filme mais ambicioso, uma epopeia de três horas de duração recheada de longas discussões sobre física quântica e complexas relações temporais. No entanto, mesmo sedimentando seu filme em uma intrincada teia de teorias que não cabe a quase ninguém contestar a veracidade (apesar desta discussão ser, no mínimo, interessante de se observar), e que elevam muito o patamar do filme, o diretor (que também é autor do roteiro) parece estar mais interessado em versar sobre os relacionamentos familiares e os valores sentimentais que unem as pessoas. O filme até tem bom ritmo, mas gira em torno das situações mais bregas e infantis possíveis – ou o comportamento das pessoas diante do caos retrocedeu a níveis de chororô insuportável (parte que cabe à filha do protagonista, ainda adolescente), truculência inexplicável (parte que cabe ao ator Casey Affleck, filho mais velho do protagonista em sua fase adulta) e muita dose de charlatanismo (parte que cabe aos personagens dos atores Michael Caine e Matt Damon – este último, por sinal, tem em mãos um dos personagens mais desnecessários na construção de um filme nos últimos tempos). Se atendo aos fatos e não aos argumentos científicos, há situações incrivelmente mal explicadas que, em um tratamento ao conteúdo do roteiro, garantiriam a Nolan um filme muito mais consistente e equilibrado. Ainda assim, o filme reserva lugar para uma deliciosa viagem ao espaço, brilhantemente conduzida pela trilha sonora de Hans Zimmer; uma das cenas mais bonitas do ano – a passagem do tempo na Terra através das notícias dos filhos pelo monitor da espaçonave de McConaughey – e o olhar de Jessica Chastain.  

Para ver: INTERESTELAR (Interstellar, 2014, de Christopher Nolan). Com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Michael Caine, Casey Affleck, John Litgow, Matt Damon, Ellen Burstyn.
Cotação:

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O final do ano reserva uma das brincadeiras mais divertidas para os cinéfilos: as listagem de melhores do ano. Nos EUA a coisa é séria e há verdadeiros estudos sobre possibilidades e méritos envolvendo os candidatos (como fazem o Awards Daily, o The Film Experience e o In Contention). Aqui no Brasil o TERMÔMETRO OSCAR vem fazendo um apanhado bem completo sobre a disputa que já começou. 

domingo, 9 de novembro de 2014



David Fincher abre seu novo filme, GAROTA EXEMPLAR, com um close na cabeça de Rosamund Pike e as perguntas em off do personagem interpretado por Ben Affleck, que vive seu marido, disparam a incerteza sobre um relacionamento aparentemente perfeito: ”O que você está pensando? O que você está sentindo?”.  A partir de então, o trio vivido pelo diretor e atores sai em busca dessa racionalidade insana que permeia as situações cotidianas de um casamento que parte de um intenso clima de romance para um incrível jogo de cinismo e falsidade entre o casal. É um inteligentíssimo suspense de investigação, incrivelmente bem escrito (baseado no best-seller literário de Gillian Flynn, que também é a 'dona' do roteiro) e que recicla boas fórmulas em uma direção estupenda de Fincher, que segmenta a narrativa em duas partes (a primeira coloca Affleck no centro da trama, a segunda é toda de Rosamund Pike), permeadas por flashbacks que justificam cada segundo da ação, sem deixar que a divisão fragmente seu filme. Fincher constrói cenas grandiosas de tensão, crimes e investigação, com grande subversão contextual, uma vez que o objetivo da discussão proposta desde a primeira cena permanece no dorso de seu filme até a última sequência. É bom ficar de olho na atriz principal, Rosamund Pike, pouco conhecida do público brasileiro e que entrega uma das personagens mais odiosas que o cinema já mostrou desde a enfermeira Ratched de “Um Estranho no Ninho”, de 1975, em uma atuação grandiosíssima e cheia de camadas.

Para ver: GAROTA EXEMPLAR (Gone Girl, 2014, de David Fincher). Com Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Carrie Coon.
Cotação:

domingo, 5 de outubro de 2014

O tradicional site de apostas para os prêmios de melhores do ano nos Estados Unidos, The Guru's of Gold, iniciou de forma consistente a medir os favoritos da temporada. 


BOYHOOD, de Richard Linklater, com estreia prevista para 30 de outubro no Brasil, larga na frente. O filme retrata a infância e juventude de um garoto, em uma produção filmada durante 12 anos.

O JOGO DA IMITAÇÃO, de Morten Tyldum, ainda sem data de estreia, é a cinebio do matemático Alan Turing, que serviu para ampliar os conhecimentos tecnológicos dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. BIRDMAN, de Alejandro González Iñárrituprevisto para 22 de janeiro de 2015, traz Michael Keaton como um ator cuja carreira foi por água abaixo empenhado no comebackA TEORIA DE TUDO, de James Marsch, previsto para 1 de janeiro de 2015, é a cinebio do físico Stephen Hawking. E INVENCÍVEL, dirigido por Angelina Jolie, sobre um atleta olímpico que se tornou prisioneiro durante a também Segunda Guerra, e que estreia em 15 de janeiro de 2015. 

As apostas nas demais categorias - diretor, roteiro, atores e atrizes e por aí vai - estão lá no site oficial do Guru's. Aqui no Brasil, o Spoiler Movies e o Filmes do Chico também já começaram a fazer o acompanhamento das atividades. E a gente de olho!


quinta-feira, 25 de setembro de 2014


A chegada do Outono no hemisfério norte significa que a temporada de verão do cinema dos Estados Unidos chegou ao fim. Os "filmes do Oscar" começam a tomar espaço a partir de agora entre a crítica e os cinéfilos, mas 2014 deixa um balanço que não poderia ser mais animador para os cofres dos estúdios e para o público ávido por bons filmes. Alguns dos títulos da temporada foram lembrados em posts anteriores ao longo dos últimos meses (como MALÉVOLA, X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO, A CULPA É DAS ESTRELAS e VIZINHOS). Dessa safra, três filmes receberam excelentes avaliações da crítica (estão com mais de 90% de aprovação no RottenTomatoes, um dos portais de referência na avaliação de filmes) e merecem destaque:


PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO


A reciclagem do clássico de 1968, PLANETA DOS MACACOS, que não deu certo nas mãos de Tim Burton e Mark Walhberg em 2001, virou ouro nas mãos dos produtores e roteiristas Rick Jaffa e Amanda Silver. Nesse novo filme, que vem na esteira do sucesso PLANETA DOS MACADOS: A ORIGEM, que era uma espécie de prequel do filme original (mas sem qualquer relação aparentemente imediata com ele) o diretor Matt Reeves foi colocado atrás das câmeras e acerta o tom: entrega um grandioso e envolvente blockbuster preso a um excelente texto filosófico-social sobre o homem e suas convenções de mundo. O filme começa dez anos depois do fim de seu antecessor, mostrando que boa parte da raça humana acabou dizimada por um vírus letal, possivelmente criado pelo próprio homem em laboratório. O rosto de César surge mostrando seu rosto feroz e suas pinturas de guerra. O macaco se tornou chefe de um clã que se afastou da raça humana e reside em uma floresta próxima à cidade, cuja organização social lembra muito a dos homens. Estes, por sua vez, estão reunidos em uma cidade destroçada, cujos poucos sobreviventes se juntam para retomar as estruturas que possibilitavam sua organização – a comunicação é a primeira delas. Para isso, precisam ultrapassar as barreiras que separam homens e macacos, que coexistem em um mesmo espaço, apresentam suas próprias características, mas que reservam muito mais semelhanças que Darwin poderia supor. Reeves compõe arcos dramáticos emocionantes, variando do ódio à compaixão. Faz pensar um bocado e ainda entretém como poucos filmes fazem.


CAPITÃO AMÉRICA 2: O SOLDADO INVERNAL


O grande barato dessa continuação de CAPITÃO AMÉRICA é que agora não se perde mais tempo com explicações sobre o surgimento do herói vivido por Chris Evans, mas a ação também não as abandonam por completo – no cerne do embate do personagem, seu passado está lá. As escolham abrem espaço para um filme mais politizado: ao assumir certo posto na S.H.I.E.L.D., o capitão começa a duvidar das estratégias e segredos de Nick Fury (Samuel L. Jackson), e a investigar o surgimento de um braço militarizado dentro da agência, em boa interpretação de Robert Redford. O capitão volta a se unir à Viúva Negra (Scarlett Johansson) e ao novo membro do clã, Falcão (Anthony Mackie), para desmantelar o esquema mas não sem antes arrasar pontos turísticos da capital americana, Washington. A luta física é com o Soldado Invernal. Quem está por trás é a grande questão do filme. Os diretores Anthony e Joe Russo atraem o espectador para um longa de mais de duas horas sem cansá-lo: se as piadas e momentos cômicos são mais sutis do que o comum, o arco dramático é montado mesclando grandes sequências de ação entre outras mais textuais e reflexivas a respeitos da trama. As referências a outros personagens do universo da Marvel, inclusive ao autor Stan Lee, estão todas ali e rendem um charme a mais à produção, que supera bastante o filme de estreia do personagem, de 2011, e prepara um ótimo terreno para a continuação de OS VINGADORES, prometido para 2015.

CAPITÃO AMÉRICA 2: O SOLDADO INVERNAL já está disponível em DVD.



GUARDIÕES DA GALÁXIA


Para quem desconhecia a fonte original do filme e não sabia o que esperar de um novo exemplar de super-heróis da Marvel, o trailer de GUARDIÕES DA GALÁXIA conseguia tornar ainda mais desinteressante uma trama que reunia um humano, um guaxinim, uma árvore, um brutamontes e uma representante feminina de uma espécie qualquer de um extraterrestre esverdeado. Parecia a reunião dos párias e expatriados tentando salvar não apenas um planeta, mas todo o universo. Depois de ótimas críticas pós-estreia e o excelente boca-a-boca que o filme ganhou, vem a comprovação: um trailer tem um grande potencial de esconder um grande filme (nesse caso, de torná-lo muito específico ao seu público específico). Primeiro ponto importante: nenhum dos ‘heróis’ possui algum superpoder nato; segundo: a trama é de fácil entendimento, sem aborrecimentos extragaláticos com planos megalomaníacos que envolvem quinze gerações de dez diferentes raças que estão tentando dominar o mundo; terceiro: o diretor e co-roteirista James Gunn faz um grande trabalho na mesa de montagem, sem medo de alternar momentos de ação, aventura, romance, drama e comédia – há espaço para todos os personagens e todos os públicos, sem apelações e excessos (filme de sessão da tarde, com qualidade, como antigamente); e por fim, a presença de uma trilha sonora que é a alma do filme (que prende o espectador à simpatia do protagonista vivido por Chris Pratt e faz esquecer a vilania desinteressante do antagonista robótico Ronan).

GUARDIÕES DA GALÁXIA ainda está em cartaz nos cinemas. Confira a programação.
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