O Grande Hotel Budapeste, 2014, de Wes Anderson. Do Giphy.
domingo, 27 de julho de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
- Havia um plano e era claro! Tudo estava acertado, mas agora está...
- Degringolado?
- Yeah!
- Você não é a única. Às vezes, também não sabemos onde estamos indo... eventualmente, tudo vai se ajeitar e ficar "não-degringolado".
- E se tudo não se ajeitar?
- Bem...
- É só você... não gosto dessa pergunta.
- Viu só? E se não ganharmos feijões mágicos? E se só ganharmos... feijões?
quinta-feira, 10 de julho de 2014
A ação acontece em quatro planos
temporais distintos, inteligentemente montados, mas sem excesso de pedantismo que
implique em qualquer dificuldade ao entendimento da trama: uma jovem lê uma
obra literária sobre o hotel do título, entregando a ação ao autor do livro, que
surge em primeira pessoa para narrar o período em que esteve hospedado no local,
voltando cerca de trinta anos no tempo, com a ação apresentando o proprietário
do espaço, que numa conversa particular lhe revela a história do antigo
concierge do Hotel Budapeste, Monsieur Gustave. Wes aproveita os quatro
momentos temporais para desfilar uma galeria de interessantíssimos personagens,
vividos por habituais e novos colaboradores do diretor – Tom Wilkinson, F. Murray Abraham,
Jude Law, Tilda Swinton, Adrien Brody, Willem Dafoe, Mathieu Amalric, Saoirse Ronan, Edward
Norton, Owen Wilson, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Bill Murrray, Ralph Fiennes e Léa
Seydoux – que encenam seus dramas em um delicioso tom cômico que beiram a
ironia e abrem espaço para sequências inusitadas envolvendo crimes e
assassinatos, perseguições, mistério e romance (tente não se apaixonar pelas
atuações de Fiennes, Swinton e do estreante Tony Revolori).
O diretor é quase um seguidor do
postulado forma-função e
constrói um cenário sensacional para a representação desse texto. Da
espetacular arquitetura do Budapeste às paisagens da fictícia nação Zubrowska,
onde o hotel se encontra, tudo parece planejado em suas minúcias e executado
com extremo rigor, como se o diretor objetivasse tornar possível um mundo que
não existe mais (ou que talvez nunca tenha existido). Direção de arte,
fotografia, figurinos, maquiagem, movimentos de câmera e trilha sonora se
tornam uma engrenagem perfeita aos propósitos do cinema que Wes Anderson faz. E
da belíssima rigidez centralizadora de seus planos e enquadramentos surge um
dos filmes cujos aspectos plásticos se tornam pulmão da obra cinematográfica, possivelmente o melhor dos trabalhos do diretor.
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segunda-feira, 7 de julho de 2014
O primeiro semestre do ano para o cinema brasileiro emite sinais de que 2014 tem uma ótima safra de filmes para além das produções de comédia da Globo Filmes e de cunho social, que parecem lugar comum para o nosso cinema. Depois do ótimo HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, que de mansinho e com poucas cópias fez público de quase 100 mil pessoas, outros dois grandiosos filmes chegaram aos cinemas nesse período: ENTRE NÓS, de Paulo Morelli; e O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra, que comento rapidamente:
ENTRE NÓS
Um grupo de amigos no auge dos vinte e poucos anos se encontra para um final de semana numa casa de campo e dez anos depois voltam para relembrar os momentos do passado. Apesar de a sinopse soar como um clichê já muito explorado, o filme traz boas sensações. Ele guarda um pouco da aura dos bons seriados televisivos nacionais, que muita gente ainda vê com maus olhos, mas que é o grande apreço da obra. Passando por dois atos, nos anos 1992 e 2002, o diretor Paulo Morelli cria elementos que conectam as ações nos dois intervalos de tempo: os acontecimentos do passado são levados diretamente para o futuro e aos poucos sendo reveladas, sem pressa. O texto entre aos amigos é delicioso e os atores embarcam em atuações que, mesmo carregadas de valores dramáticos de assuntos que adentram temáticas como morte, depressão e solidão, parecem transmitir nos rostos a leveza da juventude – especialmente resgatadas no segundo ato. A câmera passeia por entre os personagens e a paisagem, estabelecendo um vínculo delicioso entre eles.
O LOBO ATRÁS DA PORTA
Avaliado pela Liga dos Blogues Cinematográficos como o melhor filme que estreou no Brasil nos seis primeiros meses deste ano, O LOBO ATRÁS DA PORTA é um espetáculo de produção, um acerto em praticamente tudo: roteiro, direção, montagem, elenco. O filme acompanha a história do trio de personagens vivido por Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabiula Nascimento, que se envolvem em jogo de traição e infidelidade matrimonial, em uma narrativa incrivelmente atemporal, que poderia ser transposta para qualquer lugar do mundo sem perder seu valor. O diretor e roteirista Fernando Coimbra envolve o espectador de tal forma que, mesmo parecer se distanciar do suspense em meio ao drama e a comédia das situações, o cria em um grau tenso e marcante. A câmera ávida de sedução – em diversos níveis – busca o colo e a nuca de Leandra e não se abstém de cortar testas e cabeças para mostrar um violento duelo psicológico entre ela e Milhem, na sequência mais angustiante do filme (ainda mais que a agoniante caminhada rumo ao desvendar do último acontecimento). Um filmaço imperdível.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
No cinema
majoritariamente feminino, ouvia-se de narizes fungandos à soluços
descompassados. Quando a luz da tela deixava a sala escura melhor iluminada era
possível enxergar lágrimas e muitos lencinhos. Em cena, Shailene Woodley e Ansel
Elgort apresentavam as mazelas de suas vidas cheias de destemperanças,
diante da morte iminente, ainda na adolescência. Um casal jovem, uma doença, a
empatia entre os dois, o romance, o sofrimento, os últimos desejos, o
afastamento, a ameaça real da morte, o fato concreto. Todos os elementos estão
dispostos ali, lado a lado, para buscar na plateia o sentimento que endossa a
existência do filme: colocar-se no lugar dos personagens ou estar o mais
próximo possível disso. Afinal, a chegada da morte é a única certeza da vida: “vai
acontecer com todo mundo e qualquer um”, já dizia o poeta. E o cinema
norte-americano parece saber, como ninguém, como usar a sentimentalidade do
público e jogar a favor disso. A CULPA É
DAS ESTRELAS é o perfil de filme que busca as lágrimas, como buscava o bom
e piegas cinema romântico dos anos oitenta feito para chorar: A ESCOLHA DE
SOFIA, A FORÇA DO DESTINO, MARCAS DO DESTINO... entre outros. Os anos noventa
tentou reviver os valores em alguns momentos, a última década também trouxe
seus exemplares chorosos no qual, sem entrar na avaliação de seus valores cinematográficos,
é quase impossível negar: são todos “filmes de mulherzinha”. E tendo um público
direcionado, sabe-se que o filme de Shailene e Ansel, em tela interpretando os
famosos Hazel Grace e Gus do best-seller literário homônimo, tem todo seu ciclo
da narração caminhando por esse terreno choroso. É marcar no relógio: depois da
primeira hora, mesmo sendo você o mais durão de todos, vai ficar sensibilizado
com a história. Se for chorão, nem adianta tentar segurar as lágrimas que elas
vão chegar. E, para quem aprecia no Cinema essa sua capacidade de nos colocar
em contato com sensações que nem sempre esbarramos no dia-a-dia, o filme é um gracioso
deleite.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
domingo, 22 de junho de 2014
Todas
as sacanagens fazem parte, basicamente, de dois universos: a família do casal
vivido por Seth e Rose, pais da recém-nascida Stella; e a fraternidade dos
universitários em que Zac e Dave presidem, que se mudam pra casa ao lado. As
piadas, logicamente, rondam esses dois cenários e os conflitos que existem entre
eles. Esquematicamente, o roteiro percorre uma sequência bastante lógica (‘apresentação
do casal’, ‘apresentação dos universitários’, ‘tentativa de convivência’ e ‘guerra
declarada’) que faz com que as piadas tenham boa fluência dentro das ações – o diretor
chega a ensaiar alguns ótimos momentos com a câmera, como por exemplo,
recriando a sensação de se estar bêbado e caminhar por um corredor estreito e
cheio de luzes. A entrega de Seth, Rose, Zac e Dave aos papéis é impressionante
– especialmente o casal. Os dois estão impecáveis como os pais divididos entre
vida de adulto e o gozo das delícias da juventude sem cobranças (o duelo entre
os dois estilos de vida é o grande assunto do filme, que também é construído a
partir do olhar dos garotos, o que torna a produção ainda mais especial).
Apesar de mirar no público masculino, VIZINHOS é capaz de divertir aos montes qualquer espectador, desde que esqueça seus brios e pudores do lado de fora da sala de cinema.
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Para ver: VIZINHOS (Neighbors, 2014, de Nicholas Stoller). Com Seth Rogen, Rose Byrne, Zac Efron, Dave Franco, Christopher Mitz-Plasse.
Apesar de mirar no público masculino, VIZINHOS é capaz de divertir aos montes qualquer espectador, desde que esqueça seus brios e pudores do lado de fora da sala de cinema.
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quarta-feira, 11 de junho de 2014
Heróis de
rostos consagrados e os novos herdeiros juntos, em uma única produção. Duas
linhas narrativas, dois clímax. E embora Singer entregue uma grande diversão, com
forte pano de fundo na história mundial, a fascinante ideia de se ter tudo em
dobro fica devendo na comparação com seu último filme com os mutantes. Há uma
aposta bastante simplista na narração, que cresce com suspense e sem surpresa em
direção ao ponto chave: os mutantes se salvarão ou finalmente os homens conseguirão
exterminar seus inimigos sobre-humanos? O desequilíbrio entre as duas linhas de
ação começa quando, aproveitando ao máximo o momento de superexposição da maior
estrela da Hollywood atual, Jennifer
Lawrence, o roteiro alça a vilã Mística à protagonista da maior parte da
trama – situada no passado em que Wolverine (novamente Hugh Jackman) retorna para convencer os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) a desmantelar o
esquema do governo com a criação dos robôs que caçam os mutantes. Mística, cujo
DNA se transforma em qualquer pessoa, é a chave que a raça humana precisa para
combater qualquer poder mutante. Mas a sensação que se tem é de ‘mais do mesmo’:
um retorno ao velho e burocrático debate entre as forças politica dos homens e
os heróis mutantes (com direito a sequências de ação ao redor da mesa de
reunião de figurões da política), agora permeados de pequenos artifícios que
costuram ficção e realidade (o assassinato do presidente JFK, a Guerra do
Vietnã, a China como a grande potência do futuro) e passado e futuro
(personagens em formação, poderes ainda não completamente adquiridos, e a
chance de encontrar novos mutantes). É claro que, dentro de um dorso narrativo
bem mais comprido, não faltam boas sequencias para a trama em que Wolverine
tenta salvar a vida dos mutantes - em especial uma acontecida na cozinha da
Casa Branca, com a ajuda de um moleque que se move em velocidade sobre-humana, Peter,
brilhantemente filmada por Singer.
O futuro esquecido, abandonado em quase todo o filme, volta com força em seus 40 minutos finais, onde é mantido com incrível tensão. As polarização global entre norte-americanos e chineses se tornam palco dos duelos que podem manter a raça de mutantes em ação ou dizimá-los definitivamente da Terra. Grandes muralhas orientais e ícones do poderio dos EUA se fragmentam diante do embate dos sentinelas e mutantes. A história passa a ganhar novo capítulo e um dos maiores enigmas da humanidade é revelado diante da plateia, após os créditos finais. Caminhos escritos para uma continuação, prometida para 2016. Novamente com Singer como diretor.
O futuro esquecido, abandonado em quase todo o filme, volta com força em seus 40 minutos finais, onde é mantido com incrível tensão. As polarização global entre norte-americanos e chineses se tornam palco dos duelos que podem manter a raça de mutantes em ação ou dizimá-los definitivamente da Terra. Grandes muralhas orientais e ícones do poderio dos EUA se fragmentam diante do embate dos sentinelas e mutantes. A história passa a ganhar novo capítulo e um dos maiores enigmas da humanidade é revelado diante da plateia, após os créditos finais. Caminhos escritos para uma continuação, prometida para 2016. Novamente com Singer como diretor.
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Para ver: X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO (X-Men: Days of a Future Past, 2014, de Brian Singer). Com Hugh Jackmann, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Nicholas Hoult, Elen Page, Peter Dinklage, Ian Mckellen, Patrick Stewart, Even Peters
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Sucesso de longo tempo nos palcos do teatro brasileiro, OS HOMENS SÃO DE MARTE... E É PRA LÁ QUE EU VOU aporta no cinema com o aval da Globo Filmes, mirando o público específico das comédias (especialmente o feminino). A história, tal qual sua fonte original, retrata as desavenças de uma balzaquiana quase quarentona, Fernanda, que ainda sonha com um casamento tradicional. A cada possibilidade de encontrar um pretendente, ela se joga nos braços do homem como se fosse sua última grande chance. E a partir daí, vive os mesmos ciclos: o encantamento imediato, as promessas não cumpridas de seu parceiro e a fase depressiva por conta de outro relacionamento mal sucedido. O filme é levinho, clichê e segue por um caminho tão brando e divertido que a gente mal consegue se dar conta que defende com unhas e dentes aqueles ideais que faziam parte da discussão entre as adolescentes e jovens dos anos noventa: pra se ter uma vida sentimental ajustada e dentro dos padrões socialmente aceitáveis (um casamento de véu e grinalda, filhos e visita à sogra aos domingos) existe uma fórmula (que começa com o famoso não fazer sexo no primeiro encontro). Mônica Martelli reprisa seu papel e o faz bem. Troca o monólogo dos palcos por uma narração em off e divide cena com dois pontos de apoio cômico, o melhor deles vivido pelo amigo gay interpretado por Paulo Gustavo, responsável pelas gargalhadas. A narrativa é quase episódica, costurada pela obstinação da protagonista em arrumar um marido e viver a vida tradicionalista: do político ela só ganha uma noite de sexo e se sente usada; do figurão playboy, um quase relacionamento que acaba com uma proposta de um ménage à trois (reforçando a ideia do quanto Fernanda e o filme defendem uma visão prosaica); do europeu que abandonou o luxo do continente para viver de pés descalços numa praia distante da cidade, no interior da Bahia, um relacionamento em que precisa abrir mão de sua urbanidade e ganhos materiais; para, por fim, encontrar-se nos braços de quem, à princípio, ela julga incapaz de lhe dar o que deseja, mas é com quem, finalmente, constrói uma relação saudável e cheia de fórmulas, discurso que o filme defende todo o tempo. Pra quem suporta os ideias que o filme defende ou o simples direito de assim enxergar a vida quem bem o faz, não ofende e garante boas risadas.
Para ver: EU, MAMÃE E OS MENINOS (Les garçons et Guillaume, à table!, 2013, de Guillaume Gallienne). Com Guillaume Gallienne, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger.
domingo, 1 de junho de 2014
sábado, 31 de maio de 2014
MALÉVOLA é um produto Disney que cumpre quase sempre o prometido. É
divertido sem exagerar nas histrionices, com algumas boas sequencias cheias de
efeitos visuais atrativos e Angelina
Jolie se esbaldando no papel da fada malvada abusando das caras, bocas e
viradinhas de pescoço dignas de uma cantora pop alçada ao plano de “diva” (para
delírio da crescente plateia que se manifesta dentro do cinema com interjeições
e aplausos). Interessante mesmo é perceber que a grande aposta do filme é
também seu maior risco: para recontar a história do conto “A Bela Adormecida”
sob o ponto de vista da vilã, o estúdio investe no mesmo caminho do sucesso
FROZEN, que ganhou o último Oscar de animação. A antagonista da Bela (interpretada com excessos de sorrisos pela atriz Elle Fanning) passa por
uma transformação em sua personalidade, deixando-a mais próxima da condição
humana – aquela que cai em desgraça e comete maldades, mas também é cheia de
virtudes e boas intenções –, como a rainha Elsa. A ousadia que modifica a
trama do filme inevitavelmente acaba por modificar partes do conto original,
dando ao filme seu maior atrativo: romper limites, propor mudanças, ousar sobre
o que já foi dito, fugir da representação literal. É muito, muito bacana quando
um filme corre risco e foge da segurança das representações repetitivas e
banais (ainda que o público mais ortodoxo esbraveje ao final da sessão – como aconteceu
com o recente NOÉ, quando a plateia saía do cinema acusando o diretor Darren
Aronofsky de heresia por conta das mudanças promovidas na história do profeta
bíblico).
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Para ver: MALÉVOLA (Maleficent, 2014, de Robert Stromberg). Com Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley.
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Para ver: REFÉM DA PAIXÃO (Labor Day 2013, de Jason Reitman). Com Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, Tom Lipinski, J.K. Simmons, James Van Der Beek.
O conteúdo da edição 2014 do FESTIVAL DE CANNES, que consagrou o turco WINTER SLEEP com a Palma de Ouro, já está disponível na página especial do festival. Relembre aqui o dia a dia de exibição de cada um dos concorrentes.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
sábado, 10 de maio de 2014
A edição nº 75 do maior festival de cinema do mundo, o FESTIVAL DE CANNES, começa na próxima quarta-feira, dia 14 de maio. Já assistiu a todos os filmes que fizeram parte da edição de 2013? Relembre aqui cada um dos concorrentes.
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quarta-feira, 7 de maio de 2014
Há quem torça o nariz para
o cinema de armadilhas e artimanhas que o canadense Dennis Villeneuve faz. E depois da bem sucedida incursão no
thriller hollywoodiano OS SUSPEITOS,
no ano passado, em seu novo filme, O HOMEM DUPLICADO, o diretor volta a tocar na
mesma construção de REDEMOINHO, sua estreia nos cinemas em 2000, vencedor de
oito prêmios no Genie Awards daquele ano e da Mostra Panorama do Festival de
Berlim. A história, que é baseada na obra homônima do escritor português José
Saramago, apresenta como protagonista Adam, um professor universitário que
certo dia assiste a um filme no conforto do sofá de casa e vê-se em cena, em
segundo plano. A partir de então, começa a investigar o significado daquilo,
atrás das respostas mais imediatas (um irmão gêmeo que nunca lhe foi anunciado
ou a existência de um duplo/clone em algum lugar do mundo).
Extrapolando em muito a
estranheza do universo visual criado em sua estreia, Villeneuve propõe um filme
bastante enxuto, guiado por simbologias intrigantes e enigmáticas (a aranha que
estampa o pôster, presente em diversos segmentos do filme, possivelmente é a
mais emblemática delas), com diálogos e fatos que nunca merecem ser descartados
e que se conectam com alguma outra sequência apresentada em seus 90 minutos de
duração. O HOMEM DUPLICADO é um daqueles exemplares cinematográficos cuja
primeira análise não dá cabo de todas as intenções almejadas: é preciso ruminar
cada acontecimento como forma de montar o quebra-cabeça proposto pelo diretor.
É um modo fascinantemente interessante de se fazer cinema (que se esgota numa
segunda ou terceira olhada e a partir de então merece ficar na memória). O
caminho percorrido pelo protagonista vivido por Jake Gyllenhaal até desvendar a existência de Anthony, seu duplo, tem
suas ações e falas tão minuciosamente pensadas que chega a ser perturbador em
quase todas as cenas – não é raro que o espectador se pergunte várias vezes que
tipo de história está acompanhando – acrescido pelo fato de que, como a
protagonista de Marie-Josée Croze de REDEMOINHO, Adam (o Tertuliano Máximo
Afonso de Saramago) vive uma vida soturna e cíclica, que jamais parece
despertar qualquer interesse dele mesmo – ainda que tenha uma boa profissão
(que ele faz questão de conduzir com absoluta desmotivação), um belo apartamento
(cuja ambientação é o reflexo de sua vida depressiva e desinteressante) e uma
namorada belíssima (vivida pela francesa Melànie
Laurent) com quem mantém boas noites de sexo.
O ótimo roteiro de Javier Gullón passa longe do didatismo, mesmo com seu autor afirmando ter modificado seções da trama original de Saramago. Para o filme, a complexa jornada
de Adam teria, na verdade, um forte caráter subjetivo, distante de respostas
fáceis que a existência de um homem duplo pode indicar. Para o cinema, O HOMEM DUPLICADO é Dennis Villeneuve percorrendo os caminhos que David
Lynch fez em MULHOLLAND DRIVE – com menos camadas e brilhantismo, mas
entregando um filme incrível.
SPOILER
(revelações importantes sobre o conteúdo do filme, não
recomendável para quem ainda não o assistiu)
Apesar da trama suscitar diferentes explicações sobre seu conteúdo, a que me ocorre com maior clareza é que Anthony, o ator, é um produto do subconsciente de Adam, o professor. Como se ele estivesse num surto de dupla personalidade, em decorrência da vida insossa que leva com sua esposa, Helen (vivida pela atriz Sarah Gadon), que está grávida, após obrigá-lo a terminar seu caso extraconjugal com Mary (personagem de Melànie Laurent). Três eixos parecem capazes de sustentar essa ideia (ainda que muitas outras coisas corroborem para tal):
Helen, a esposa. Grávida, ela
fica transtornada sempre que percebe a crise mental do marido (quando fala com
ele ao telefone ou no apartamento, quando vai à universidade vê-lo) e sugere em
uma conversa que desconfia que ele voltou a traí-la. Ela está grávida de 6 meses,
mesmo tempo em que Anthony não vai até o prédio da agência de sua “carreira” no
cinema, que pode ser o local em que ele se encontrava com a amante. Ela percebe
a insanidade mental do marido e, nos diálogos, insiste que ele sabe o que está
acontecendo.
Mary, a amante. Adam sempre teve traços de infidelidade – frequentava clubes
de strip-tease no passado, e chega a ser questionado por sua mãe quanto a sua
instabilidade – e manteve um relacionamento com Mary em um apartamento que
utilizavam para se encontrar, possivelmente sem ela saber que ele era casado
(ele sempre tirava a aliança?). Ao se ver encurralado pela esposa por conta de
sua sanidade mental, ele dá um jeito de eliminar a amante do seu caminho – em
um plano psicológico, uma vez que ao que parece todos os acontecimentos do
presentes são apenas fruto da imaginação de Adam. Mary já não é a amante há
pelo menos seis meses (tempo para surgir uma marca de aliança no dedo, que ela
estranha).
A aranha. O elemento que denota a loucura de Adam pode representar o
ponto chave da trama: o aprisionamento a um relacionamento estável com sua
esposa. A aranha aparece pela primeira vez na cena do clube de strip-tease, em
que uma stripper solta o bicho sobre o palco rodeado de homens para logo depois
pisar sobre ela, o que parece uma metáfora bem clara do desprestígio ao
casamento ou, ainda, "pisar sobre a própria esposa". Ao avançar a
trama, a aranha aparece outras duas vezes: primeiro sobre a cabeça de uma
mulher sensual que caminha pelo teto de um corredor escuro em um sonho de Adam
(outra metáfora para a infidelidade, a mulher que “vira a cabeça” do homem); e
em seguida, sobre os edifícios da cidade (sinal da opressão do ser sociável?).
Na cena do acidente de carro, após o capotamento, o vidro lateral do banco em que
estava Mary, a amante, tem um trincado em forma de teia de aranha (a esposa
teria, definitivamente, vitimado a amante e capturado o marido?). Por fim, após
a aparente ordem mental de Adam ter sido restabelecida, na cena final,
tem-se a maior estranheza, quando ele vê que a mulher se tornou uma aranha
gigantesca dentro do quarto do casal, dominando cada pedaço do cômodo.
Sugestivo, não?
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Para ver: O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, de Dennis Villeneuve). Com Jake Gyllenhall, Melànie Laurent, Sarah Gadon, Isabela Rossellini.
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Woody Allen, cujo filme de 2014 - MAGIC IN THE MOONLIGHT - está previsto para estrear em Julho nos Estados Unidos, já começa a preparar o filme de 2015: Joaquin Phoenix estará no elenco.
DEAR MR. WATTERSON, documentário sobre o criador dos personagens Calvin e Haroldo, Bill Watterson, se concentra em revelar o universo de autor, mostrando suas referências, explicando suas predileções e posturas e, também, revelando os principais acontecimentos de sua carreira, dos anos 80 para cá. À medida que o diretor do documentário, Joel Allen Schroeder, sai em busca de Bill (que evita a todo custo qualquer exibição pública), mostrando sua cidade, infância e primeiros trabalhos, como forma de adentrar no universo de criação do autor, algumas das melhores histórias de "Calvin e Haroldo" são reveladas ao espectador - inclusive em uma visita ao acervo público que detém todas as publicações originais de Bill. Na maior parte do tempo, a discussão se debruça sobre o fato de "Calvin e Haroldo" nunca ter sido comercializado em nenhum outro produto ou arte que não a própria tirinha (exigência de seu idealizador). O filme talvez não caia nas graças de quem não se derrame pelos encantos ou seja fã do universo do moleque e de seu tigre de pelúcia - como eu -, mas deve interessar aos que gostam de adentrar no processo de criação de um grande autor.
Para ver: DEAR MR. WATTERSON (idem, 2013, de Joel Allen Schroeder).
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