quinta-feira, 25 de setembro de 2014


A chegada do Outono no hemisfério norte significa que a temporada de verão do cinema dos Estados Unidos chegou ao fim. Os "filmes do Oscar" começam a tomar espaço a partir de agora entre a crítica e os cinéfilos, mas 2014 deixa um balanço que não poderia ser mais animador para os cofres dos estúdios e para o público ávido por bons filmes. Alguns dos títulos da temporada foram lembrados em posts anteriores ao longo dos últimos meses (como MALÉVOLA, X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO, A CULPA É DAS ESTRELAS e VIZINHOS). Dessa safra, três filmes receberam excelentes avaliações da crítica (estão com mais de 90% de aprovação no RottenTomatoes, um dos portais de referência na avaliação de filmes) e merecem destaque:


PLANETA DOS MACACOS: O CONFRONTO


A reciclagem do clássico de 1968, PLANETA DOS MACACOS, que não deu certo nas mãos de Tim Burton e Mark Walhberg em 2001, virou ouro nas mãos dos produtores e roteiristas Rick Jaffa e Amanda Silver. Nesse novo filme, que vem na esteira do sucesso PLANETA DOS MACADOS: A ORIGEM, que era uma espécie de prequel do filme original (mas sem qualquer relação aparentemente imediata com ele) o diretor Matt Reeves foi colocado atrás das câmeras e acerta o tom: entrega um grandioso e envolvente blockbuster preso a um excelente texto filosófico-social sobre o homem e suas convenções de mundo. O filme começa dez anos depois do fim de seu antecessor, mostrando que boa parte da raça humana acabou dizimada por um vírus letal, possivelmente criado pelo próprio homem em laboratório. O rosto de César surge mostrando seu rosto feroz e suas pinturas de guerra. O macaco se tornou chefe de um clã que se afastou da raça humana e reside em uma floresta próxima à cidade, cuja organização social lembra muito a dos homens. Estes, por sua vez, estão reunidos em uma cidade destroçada, cujos poucos sobreviventes se juntam para retomar as estruturas que possibilitavam sua organização – a comunicação é a primeira delas. Para isso, precisam ultrapassar as barreiras que separam homens e macacos, que coexistem em um mesmo espaço, apresentam suas próprias características, mas que reservam muito mais semelhanças que Darwin poderia supor. Reeves compõe arcos dramáticos emocionantes, variando do ódio à compaixão. Faz pensar um bocado e ainda entretém como poucos filmes fazem.


CAPITÃO AMÉRICA 2: O SOLDADO INVERNAL


O grande barato dessa continuação de CAPITÃO AMÉRICA é que agora não se perde mais tempo com explicações sobre o surgimento do herói vivido por Chris Evans, mas a ação também não as abandonam por completo – no cerne do embate do personagem, seu passado está lá. As escolham abrem espaço para um filme mais politizado: ao assumir certo posto na S.H.I.E.L.D., o capitão começa a duvidar das estratégias e segredos de Nick Fury (Samuel L. Jackson), e a investigar o surgimento de um braço militarizado dentro da agência, em boa interpretação de Robert Redford. O capitão volta a se unir à Viúva Negra (Scarlett Johansson) e ao novo membro do clã, Falcão (Anthony Mackie), para desmantelar o esquema mas não sem antes arrasar pontos turísticos da capital americana, Washington. A luta física é com o Soldado Invernal. Quem está por trás é a grande questão do filme. Os diretores Anthony e Joe Russo atraem o espectador para um longa de mais de duas horas sem cansá-lo: se as piadas e momentos cômicos são mais sutis do que o comum, o arco dramático é montado mesclando grandes sequências de ação entre outras mais textuais e reflexivas a respeitos da trama. As referências a outros personagens do universo da Marvel, inclusive ao autor Stan Lee, estão todas ali e rendem um charme a mais à produção, que supera bastante o filme de estreia do personagem, de 2011, e prepara um ótimo terreno para a continuação de OS VINGADORES, prometido para 2015.

CAPITÃO AMÉRICA 2: O SOLDADO INVERNAL já está disponível em DVD.



GUARDIÕES DA GALÁXIA


Para quem desconhecia a fonte original do filme e não sabia o que esperar de um novo exemplar de super-heróis da Marvel, o trailer de GUARDIÕES DA GALÁXIA conseguia tornar ainda mais desinteressante uma trama que reunia um humano, um guaxinim, uma árvore, um brutamontes e uma representante feminina de uma espécie qualquer de um extraterrestre esverdeado. Parecia a reunião dos párias e expatriados tentando salvar não apenas um planeta, mas todo o universo. Depois de ótimas críticas pós-estreia e o excelente boca-a-boca que o filme ganhou, vem a comprovação: um trailer tem um grande potencial de esconder um grande filme (nesse caso, de torná-lo muito específico ao seu público específico). Primeiro ponto importante: nenhum dos ‘heróis’ possui algum superpoder nato; segundo: a trama é de fácil entendimento, sem aborrecimentos extragaláticos com planos megalomaníacos que envolvem quinze gerações de dez diferentes raças que estão tentando dominar o mundo; terceiro: o diretor e co-roteirista James Gunn faz um grande trabalho na mesa de montagem, sem medo de alternar momentos de ação, aventura, romance, drama e comédia – há espaço para todos os personagens e todos os públicos, sem apelações e excessos (filme de sessão da tarde, com qualidade, como antigamente); e por fim, a presença de uma trilha sonora que é a alma do filme (que prende o espectador à simpatia do protagonista vivido por Chris Pratt e faz esquecer a vilania desinteressante do antagonista robótico Ronan).

GUARDIÕES DA GALÁXIA ainda está em cartaz nos cinemas. Confira a programação.
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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO foi escolhido pela comissão do Ministério da Cultura como o representante do país na disputa a uma vaga na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar 2015. O filme já foi premiado em mostras parelelas do último Festival de Berlim, no início do ano e passará por uma nova seleção para estar entre os cinco finalistas da categoria, que será anunciada em janeiro do próximo ano.
 
Em abril, quando em cartaz, comentei certos aspectos da obra no texto publicado aqui. Um grande filme, que deve brigar por uma vaga - o filme estreia em novembro no circuito comercial dos EUA, época favorável para ser lembrado entre os indicados.
 
 

sábado, 13 de setembro de 2014

O ano do cinema americano é dividido em trimestres e os "filmes de verão", que encerraram um ótimo ano para o mercado de entretenimento (assunto que abordarei no próximo post), agora dão lugar aos "filmes do Oscar", com a temporada de premiação começando a apresentar seus postulantes nos últimos três meses do anos. 

Os festivais de Telluride e Toronto - de onde saíram seis dos últimos nove vencedores do maior prêmio do cinema - já acabaram, e a jornalista brasileira radicada nos EUA, Ana Maria Bahiana, fez uma pequena prévia sobre esse seleto grupo de filmes que já passaram pela análise severa da crítica e do público e devem estar na disputa pelos prêmios do ano. Vale dar uma conferida e ficar de olho nos nomes (apenas um deles, O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, já está em cartaz no país). 


segunda-feira, 1 de setembro de 2014


Com LUCY, o cineasta francês Luc Besson volta a pisar no terreno do thriller de ficção científica que, possivelmente, lhe rendeu sua maior fama internacional até os dias de hoje, com O QUINTO ELEMENTO. E, se tratando de um tema que conhece, encontra um modo bastante convincente para explorá-lo bem. O que o torna seu novo filme especial é que Besson escolhe um plot que de tanto dito por aí, quase já virou verdade (mesmo que ninguém nunca tenha sequer passado perto de comprová-lo): o mito de que o homem usa apenas 10% de seu potencial cerebral para toda e qualquer atividade que desempenhe.  E com a popularização de um ‘mito-quase-verdade’ nas mãos, o diretor brinca com as possibilidades que o amplo cenário se apresenta para o público, abrindo mão de máquinas e parafernálias tecnológicas em excesso.

A personagem título, uma moça oportunista vivida por Scarlett Johansson, é acidentalmente jogada no meio de um incidente que faz aumentar potencialmente sua atividade cerebral. A partir de então, ela entra em contato com possibilidades extraordinárias de ações que desafiam a ciência, a física e a lógica. Mas o recado que Besson quer dividir, depois de muita experimentação e diversão (perseguições, tiros e sequências de tirar o fôlego, como a que acontece dentro de um avião no ar), é que se talvez nossa inteligência tenha sucumbido diante dos inúmeros neurônios não utilizados, é que possivelmente os sentimentos humanos tenham algum complemento à arte de pensar - o que, de certa forma, explicaria as muitas falhas do roteiro.

E sob esse aspecto, é possível que o medo seja o centro de tudo aquilo que Besson deseja para construir sua personagem humana e existenciar sua raça. Através da ótima atuação de Scarlett, que aos poucos vai esquecendo seus limites para aceitar qualquer coisa, correndo contra o tempo, acelerada feito máquina, antecipando seu destino inerte; seja pelas boas inserções visuais que colam as sensações dos homens nas dos animais (novamente com o medo e a apreensão); ou pela progressão do passado, um dos momentos mais deslumbrantes do filme, que pode ser encarado como um movimento legitimador do ser vivo pela busca desenfreada pelo ultra conhecimento tecnológico que os ambientalistas já apontam como o princípio do fim, panorama que ironicamente Besson parece assinar embaixo.
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Para ver: LUCY (idem, 2014, de Luc Besson). Com Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi-Min sik, Amr Waked).
Cotação

domingo, 27 de julho de 2014

domingo, 20 de julho de 2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

- Havia um plano e era claro! Tudo estava acertado, mas agora está...
- Degringolado?
- Yeah!
- Você não é a única. Às vezes, também não sabemos onde estamos indo... eventualmente, tudo vai se ajeitar e ficar "não-degringolado".
- E se tudo não se ajeitar?
- Bem...
- É só você... não gosto dessa pergunta.
- Viu só? E se não ganharmos feijões mágicos? E se só ganharmos... feijões?




quinta-feira, 10 de julho de 2014




O diretor Wes Anderson, que já estava acostumado a ousar e fugir do insosso e burocrático senso comum de filmar avança ainda mais nesse seu filme mais recente. O GRANDE HOTEL BUDAPESTE, seu oitavo longa-metragem, é um primor nos dois aspectos mais interessantes de uma obra cinematográfica: visual e narrativa. E o melhor é que os dois andam de braços dados para contar a história do hotel homônimo cheio dos excêntricos e costumeiros personagens do diretor.

A ação acontece em quatro planos temporais distintos, inteligentemente montados, mas sem excesso de pedantismo que implique em qualquer dificuldade ao entendimento da trama: uma jovem lê uma obra literária sobre o hotel do título, entregando a ação ao autor do livro, que surge em primeira pessoa para narrar o período em que esteve hospedado no local, voltando cerca de trinta anos no tempo, com a ação apresentando o proprietário do espaço, que numa conversa particular lhe revela a história do antigo concierge do Hotel Budapeste, Monsieur Gustave. Wes aproveita os quatro momentos temporais para desfilar uma galeria de interessantíssimos personagens, vividos por habituais e novos colaboradores do diretor – Tom Wilkinson, F. Murray Abraham, Jude Law, Tilda Swinton, Adrien Brody, Willem Dafoe, Mathieu Amalric, Saoirse Ronan, Edward Norton, Owen Wilson, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Jeff Goldblum, Bill Murrray, Ralph Fiennes e Léa Seydoux – que encenam seus dramas em um delicioso tom cômico que beiram a ironia e abrem espaço para sequências inusitadas envolvendo crimes e assassinatos, perseguições, mistério e romance (tente não se apaixonar pelas atuações de Fiennes, Swinton e do estreante Tony Revolori).

O diretor é quase um seguidor do postulado forma-função e constrói um cenário sensacional para a representação desse texto. Da espetacular arquitetura do Budapeste às paisagens da fictícia nação Zubrowska, onde o hotel se encontra, tudo parece planejado em suas minúcias e executado com extremo rigor, como se o diretor objetivasse tornar possível um mundo que não existe mais (ou que talvez nunca tenha existido). Direção de arte, fotografia, figurinos, maquiagem, movimentos de câmera e trilha sonora se tornam uma engrenagem perfeita aos propósitos do cinema que Wes Anderson faz. E da belíssima rigidez centralizadora de seus planos e enquadramentos surge um dos filmes cujos aspectos plásticos se tornam pulmão da obra cinematográfica, possivelmente o melhor dos trabalhos do diretor.
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Para ver: O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, de Wes Andeson). Com Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Edward Norton, Saoirse Ronan, Tilda Swinton).
Cotação: 


segunda-feira, 7 de julho de 2014

O primeiro semestre do ano para o cinema brasileiro emite sinais de que 2014 tem uma ótima safra de filmes para além das produções de comédia da Globo Filmes e de cunho social, que parecem lugar comum para o nosso cinema. Depois do ótimo HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO, que de mansinho e com poucas cópias fez público de quase 100 mil pessoas, outros dois grandiosos filmes chegaram aos cinemas nesse período: ENTRE NÓS, de Paulo Morelli; e O LOBO ATRÁS DA PORTA, de Fernando Coimbra, que comento rapidamente:



ENTRE NÓS

Um grupo de amigos no auge dos vinte e poucos anos se encontra para um final de semana numa casa de campo e dez anos depois voltam para relembrar os momentos do passado. Apesar de a sinopse soar como um clichê já muito explorado, o filme traz boas sensações. Ele guarda um pouco da aura dos bons seriados televisivos nacionais, que muita gente ainda vê com maus olhos, mas que é o grande apreço da obra. Passando por dois atos, nos anos 1992 e 2002, o diretor Paulo Morelli cria elementos que conectam as ações nos dois intervalos de tempo: os acontecimentos do passado são levados diretamente para o futuro e aos poucos sendo reveladas, sem pressa. O texto entre aos amigos é delicioso e os atores embarcam em atuações que, mesmo carregadas de valores dramáticos de assuntos que adentram temáticas como morte, depressão e solidão, parecem transmitir nos rostos a leveza da juventude – especialmente resgatadas no segundo ato. A câmera passeia por entre os personagens e a paisagem, estabelecendo um vínculo delicioso entre eles.



O LOBO ATRÁS DA PORTA

Avaliado pela Liga dos Blogues Cinematográficos como o melhor filme que estreou no Brasil nos seis primeiros meses deste ano, O LOBO ATRÁS DA PORTA é um espetáculo de produção, um acerto em praticamente tudo: roteiro, direção, montagem, elenco. O filme acompanha a história do trio de personagens vivido por Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabiula Nascimento, que se envolvem em jogo de traição e infidelidade matrimonial, em uma narrativa incrivelmente atemporal, que poderia ser transposta para qualquer lugar do mundo sem perder seu valor. O diretor e roteirista Fernando Coimbra envolve o espectador de tal forma que, mesmo parecer se distanciar do suspense em meio ao drama e a comédia das situações, o cria em um grau tenso e marcante. A câmera ávida de sedução – em diversos níveis – busca o colo e a nuca de Leandra e não se abstém de cortar testas e cabeças para mostrar um violento duelo psicológico entre ela e Milhem, na sequência mais angustiante do filme (ainda mais que a agoniante caminhada rumo ao desvendar do último acontecimento). Um filmaço imperdível. 

sexta-feira, 4 de julho de 2014


Uma Thurman e Lucy Liu, nos bastidores das filmagens de "Kill Bill - Vol. 1".

sexta-feira, 27 de junho de 2014


No cinema majoritariamente feminino, ouvia-se de narizes fungandos à soluços descompassados. Quando a luz da tela deixava a sala escura melhor iluminada era possível enxergar lágrimas e muitos lencinhos. Em cena, Shailene Woodley e Ansel Elgort apresentavam as mazelas de suas vidas cheias de destemperanças, diante da morte iminente, ainda na adolescência. Um casal jovem, uma doença, a empatia entre os dois, o romance, o sofrimento, os últimos desejos, o afastamento, a ameaça real da morte, o fato concreto. Todos os elementos estão dispostos ali, lado a lado, para buscar na plateia o sentimento que endossa a existência do filme: colocar-se no lugar dos personagens ou estar o mais próximo possível disso. Afinal, a chegada da morte é a única certeza da vida: “vai acontecer com todo mundo e qualquer um”, já dizia o poeta. E o cinema norte-americano parece saber, como ninguém, como usar a sentimentalidade do público e jogar a favor disso. A CULPA É DAS ESTRELAS é o perfil de filme que busca as lágrimas, como buscava o bom e piegas cinema romântico dos anos oitenta feito para chorar: A ESCOLHA DE SOFIA, A FORÇA DO DESTINO, MARCAS DO DESTINO... entre outros. Os anos noventa tentou reviver os valores em alguns momentos, a última década também trouxe seus exemplares chorosos no qual, sem entrar na avaliação de seus valores cinematográficos, é quase impossível negar: são todos “filmes de mulherzinha”. E tendo um público direcionado, sabe-se que o filme de Shailene e Ansel, em tela interpretando os famosos Hazel Grace e Gus do best-seller literário homônimo, tem todo seu ciclo da narração caminhando por esse terreno choroso. É marcar no relógio: depois da primeira hora, mesmo sendo você o mais durão de todos, vai ficar sensibilizado com a história. Se for chorão, nem adianta tentar segurar as lágrimas que elas vão chegar. E, para quem aprecia no Cinema essa sua capacidade de nos colocar em contato com sensações que nem sempre esbarramos no dia-a-dia, o filme é um gracioso deleite. 


Para ver: A CULPA É DAS ESTRELAS (The Fault in Our Stars, 2014, de Josh Boone). Com Shailene Woodley, Ansel Elgort, Laura Dern, Sam Trammel, Willem Dafoe, Nat Wolff.
Cotação:

quinta-feira, 26 de junho de 2014

"Bom é o filme que faz perguntas, o que tem respostas, você joga no lixo".

Eduardo Coutinho

domingo, 22 de junho de 2014


Meryl Streep, 65 anos.


H-I-L-Á-R-I-O. Há muito, muito tempo uma comédia americana idiota (ok, nem tanto assim) não era responsável por gargalhadas homéricas emitidas dentro do cinema. Ok, também nem tanto tempo assim se você é um daqueles que aprecia as geniais bizarrices de Seth Rogen e sua turma em É O FIM, que estreou no ano passado. Mas dessa vez, a trupe do ator (que agora reúne Zac Efron, Dave Franco e a sensacional Rose Byrne) escalou o diretor Nicholas Stoller (que escreveu o bonitinho e divertido OS MUPPETS, de 2011) para embarcar em um filme sem limites para a diversão. Portanto, cuidado: se você se ofende facilmente com piadas de cunho sexual (pintos, pintos, pintos, peitos, masturbação e sexo – ou quase isso – e todos os fluidos que fazem parte do processo); piadas sobre drogas (maconha, cannabis, marijuana, muita fumaça e algumas doses de álcool) e infinitas referências politicamente incorretas, passe muito longe de uma sessão de VIZINHOS.

Todas as sacanagens fazem parte, basicamente, de dois universos: a família do casal vivido por Seth e Rose, pais da recém-nascida Stella; e a fraternidade dos universitários em que Zac e Dave presidem, que se mudam pra casa ao lado. As piadas, logicamente, rondam esses dois cenários e os conflitos que existem entre eles. Esquematicamente, o roteiro percorre uma sequência bastante lógica (‘apresentação do casal’, ‘apresentação dos universitários’, ‘tentativa de convivência’ e ‘guerra declarada’) que faz com que as piadas tenham boa fluência dentro das ações – o diretor chega a ensaiar alguns ótimos momentos com a câmera, como por exemplo, recriando a sensação de se estar bêbado e caminhar por um corredor estreito e cheio de luzes. A entrega de Seth, Rose, Zac e Dave aos papéis é impressionante – especialmente o casal. Os dois estão impecáveis como os pais divididos entre vida de adulto e o gozo das delícias da juventude sem cobranças (o duelo entre os dois estilos de vida é o grande assunto do filme, que também é construído a partir do olhar dos garotos, o que torna a produção ainda mais especial).

Apesar de mirar no público masculino, VIZINHOS é capaz de divertir aos montes qualquer espectador, desde que esqueça seus brios e pudores do lado de fora da sala de cinema.
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Para ver: VIZINHOS (Neighbors, 2014, de Nicholas Stoller). Com Seth Rogen, Rose Byrne, Zac Efron, Dave Franco, Christopher Mitz-Plasse.
Cotação:

sexta-feira, 20 de junho de 2014

quarta-feira, 11 de junho de 2014


Depois de fazer o melhor filme de super-heróis de histórias em quadrinhos do cinema – X-MEN 2, de 2003 – o diretor Bryan Singer abandonou o grupo na terceira parte e ensaiou um retorno como produtor de X-MEN: PRIMEIRA CLASSE, outro filmaço dos mutantes, realizado em 2011, com os célebres personagens apresentados em sua juventude. Motivação suficiente para sua volta à cadeira de diretor em X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO, cujo roteiro se vale de uma história originalmente publicada pela Marvel em 1981 - passada em um futuro remoto em que Kitty Pride e alguns poucos outros sobreviventes retornam ao exato momento anterior à destruição maciça dos mutantes através da criação dos robôs sentinelas.

Heróis de rostos consagrados e os novos herdeiros juntos, em uma única produção. Duas linhas narrativas, dois clímax. E embora Singer entregue uma grande diversão, com forte pano de fundo na história mundial, a fascinante ideia de se ter tudo em dobro fica devendo na comparação com seu último filme com os mutantes. Há uma aposta bastante simplista na narração, que cresce com suspense e sem surpresa em direção ao ponto chave: os mutantes se salvarão ou finalmente os homens conseguirão exterminar seus inimigos sobre-humanos? O desequilíbrio entre as duas linhas de ação começa quando, aproveitando ao máximo o momento de superexposição da maior estrela da Hollywood atual, Jennifer Lawrence, o roteiro alça a vilã Mística à protagonista da maior parte da trama – situada no passado em que Wolverine (novamente Hugh Jackman) retorna para convencer os jovens Xavier (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) a desmantelar o esquema do governo com a criação dos robôs que caçam os mutantes. Mística, cujo DNA se transforma em qualquer pessoa, é a chave que a raça humana precisa para combater qualquer poder mutante. Mas a sensação que se tem é de ‘mais do mesmo’: um retorno ao velho e burocrático debate entre as forças politica dos homens e os heróis mutantes (com direito a sequências de ação ao redor da mesa de reunião de figurões da política), agora permeados de pequenos artifícios que costuram ficção e realidade (o assassinato do presidente JFK, a Guerra do Vietnã, a China como a grande potência do futuro) e passado e futuro (personagens em formação, poderes ainda não completamente adquiridos, e a chance de encontrar novos mutantes). É claro que, dentro de um dorso narrativo bem mais comprido, não faltam boas sequencias para a trama em que Wolverine tenta salvar a vida dos mutantes - em especial uma acontecida na cozinha da Casa Branca, com a ajuda de um moleque que se move em velocidade sobre-humana, Peter, brilhantemente filmada por Singer.

O futuro esquecido, abandonado em quase todo o filme, volta com força em seus 40 minutos finais, onde é mantido com incrível tensão. As polarização global entre norte-americanos e chineses se tornam palco dos duelos que podem manter a raça de mutantes em ação ou dizimá-los definitivamente da Terra. Grandes muralhas orientais e ícones do poderio dos EUA se fragmentam diante do embate dos sentinelas e mutantes. A história passa a ganhar novo capítulo e um dos maiores enigmas da humanidade é revelado diante da plateia, após os créditos finais. Caminhos escritos para uma continuação, prometida para 2016. Novamente com Singer como diretor.

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Para ver: X-MEN: DIAS DE UM FUTURO ESQUECIDO (X-Men: Days of a Future Past, 2014, de Brian Singer). Com Hugh Jackmann, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Nicholas Hoult, Elen Page, Peter Dinklage, Ian Mckellen, Patrick Stewart, Even Peters
Cotação:


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Sucesso de longo tempo nos palcos do teatro brasileiro, OS HOMENS SÃO DE MARTE... E É PRA LÁ QUE EU VOU aporta no cinema com o aval da Globo Filmes, mirando o público específico das comédias (especialmente o feminino). A história, tal qual sua fonte original, retrata as desavenças de uma balzaquiana quase quarentona, Fernanda, que ainda sonha com um casamento tradicional. A cada possibilidade de encontrar um pretendente, ela se joga nos braços do homem como se fosse sua última grande chance. E a partir daí, vive os mesmos ciclos: o encantamento imediato, as promessas não cumpridas de seu parceiro e a fase depressiva por conta de outro relacionamento mal sucedido. O filme é levinho, clichê e segue por um caminho tão brando e divertido que a gente mal consegue se dar conta que defende com unhas e dentes aqueles ideais que faziam parte da discussão entre as adolescentes e jovens dos anos noventa: pra se ter uma vida sentimental ajustada e dentro dos padrões socialmente aceitáveis (um casamento de véu e grinalda, filhos e visita à sogra aos domingos) existe uma fórmula (que começa com o famoso não fazer sexo no primeiro encontro). Mônica Martelli reprisa seu papel e o faz bem. Troca o monólogo dos palcos por uma narração em off e divide cena com dois pontos de apoio cômico, o melhor deles vivido pelo amigo gay interpretado por Paulo Gustavo, responsável pelas gargalhadas. A narrativa é quase episódica, costurada pela obstinação da protagonista em arrumar um marido e viver a vida tradicionalista: do político ela só ganha uma noite de sexo e se sente usada; do figurão playboy, um quase relacionamento que acaba com uma proposta de um ménage à trois (reforçando a ideia do quanto Fernanda e o filme defendem uma visão prosaica); do europeu que abandonou o luxo do continente para viver de pés descalços numa praia distante da cidade, no interior da Bahia, um relacionamento em que precisa abrir mão de sua urbanidade e ganhos materiais; para, por fim, encontrar-se nos braços de quem, à princípio, ela julga incapaz de lhe dar o que deseja, mas é com quem, finalmente, constrói uma relação saudável e cheia de fórmulas, discurso que o filme defende todo o tempo. Pra quem suporta os ideias que o filme defende ou o simples direito de assim enxergar a vida quem bem o faz, não ofende e garante boas risadas.

Para ver: OS HOMENS SÃO DE MARTE... E É PRA LÁ QUE EU VOU (idem, 2014, de Marcus Baldini). Com Mônica Martelli, Paulo Gustavo, Daniele Valente, Marcos Palmeira, Humberto Martins.
Cotação:
EU, MAMÃE E OS MENINOS, o filme-sensação na França em 2013, está para eles assim como MINHA MÃE É UMA PEÇA, protagonizado por Paulo Gustavo, está para o público e cinema brasileiro. Guillaume Gallienne escreveu, dirigiu e protagonizou essa comédia autobiográfica sobre seu relacionamento com sua mãe - inclusive, interpretando-a. O filme passou na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2013, estreou com grande público em outubro passado, e acabou gloriado no César (o maior prêmio do cinema francês), com 10 indicações e 5 troféus, o mais lembrado da festa. Apresentado como um espetáculo teatral transposto para a tela do cinema do começo ao fim, o filme tem uma divisão episódica durante toda a narração da vida do menino, que cresce com a lembrança de ser tratado por sua mãe como uma garota. Guillaume, o protagonista, desenvolve trejeitos e passa por todas as situações-clichês de quem descobre sua sexualidade: do susto inicial (tratado com ironia, uma vez que o menino realmente sempre achou que fosse uma garota e a partir de agora precisa começar a viver como um jovem homossexual) às sequencias situacionistas (a ida ao psiquiatra, o primeiro contato com um homem, a choque da descoberta de um 'mundo gay'). Sem charme, insosso e cheio de lugar-comum, é no mínimo curiosa essa recepção calorosa que o filme recebeu em seu país de origem. O filme fez parte da edição 2014 do Festival Varilux de Filme Francês, realizado em diversas cidades do país, no mês passado.

Para ver: EU, MAMÃE E OS MENINOS (Les garçons et Guillaume, à table!, 2013, de Guillaume Gallienne). Com Guillaume Gallienne, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger.
Cotação:

domingo, 1 de junho de 2014

“A única forma de me livrar dos meus medos é fazer filmes sobre eles”.

Alfred Hitchcock

sábado, 31 de maio de 2014


MALÉVOLA é um produto Disney que cumpre quase sempre o prometido. É divertido sem exagerar nas histrionices, com algumas boas sequencias cheias de efeitos visuais atrativos e Angelina Jolie se esbaldando no papel da fada malvada abusando das caras, bocas e viradinhas de pescoço dignas de uma cantora pop alçada ao plano de “diva” (para delírio da crescente plateia que se manifesta dentro do cinema com interjeições e aplausos). Interessante mesmo é perceber que a grande aposta do filme é também seu maior risco: para recontar a história do conto “A Bela Adormecida” sob o ponto de vista da vilã, o estúdio investe no mesmo caminho do sucesso FROZEN, que ganhou o último Oscar de animação. A antagonista da Bela (interpretada com excessos de sorrisos pela atriz Elle Fanning) passa por uma transformação em sua personalidade, deixando-a mais próxima da condição humana – aquela que cai em desgraça e comete maldades, mas também é cheia de virtudes e boas intenções –, como a rainha Elsa. A ousadia que modifica a trama do filme inevitavelmente acaba por modificar partes do conto original, dando ao filme seu maior atrativo: romper limites, propor mudanças, ousar sobre o que já foi dito, fugir da representação literal. É muito, muito bacana quando um filme corre risco e foge da segurança das representações repetitivas e banais (ainda que o público mais ortodoxo esbraveje ao final da sessão – como aconteceu com o recente NOÉ, quando a plateia saía do cinema acusando o diretor Darren Aronofsky de heresia por conta das mudanças promovidas na história do profeta bíblico). 

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Para ver: MALÉVOLA (Maleficent, 2014, de Robert Stromberg). Com Angelina Jolie, Elle Fanning, Sharlto Copley, Lesley Manville, Imelda Staunton, Juno Temple, Sam Riley.
Cotação: 


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Em REFÉM DA PAIXÃO o diretor e roteirista Jason Reitman abandona o cinismo e ironia de JUNO e JOVENS ADULTOS para realizar um excelente drama romântico e melancólico sobre Adele (Kate Winslet), uma dona de casa que foi abandonada pelo marido e vive com o filho adolescente, Henry, em um subúrbio americano. Certo dia, suas vidas pacatas se cruzam com a de um fugitivo da polícia, Frank (Josh Brolin), que se esconde na casa da família. Da aproximação entre o bandido e a mocinha depressiva nasce um relacionamento, a princípio tenso e ilegal, que transforma a vida de ambos, conduzido com extrema destreza e paixão por Reitman – que retoma o passado dos personagens para solidificar as situações do presente. Sensível e doce, mesmo se equilibrando em uma linha moral muito tênue, Reitman introduz uma narração que se propõe olhar para esse universo de fora pra dentro, mas sem abandonar os detalhes do que acontece dentro da casa – é o filho, já adulto (na voz de Tobey Maguire) que relembra em tom saudosista o final-de-semana em que ele e Adele estiveram sob a tutela de Frank. A maturidade da construção lembra bastante os caminhos que o diretor já percorreu com o também sensível e sóbrio, ainda que apaixonante, AMOR SEM ESCALAS, de 2009. Grande trabalho também de Kate Winslet, atuando entre a amargura e os pequenos sopros de vida que sua personagem recebe.

Para ver: REFÉM DA PAIXÃO (Labor Day 2013, de Jason Reitman). Com Kate Winslet, Josh Brolin, Gattlin Griffith, Tobey Maguire, Tom Lipinski, J.K. Simmons, James Van Der Beek.
Cotação:


O conteúdo da edição 2014 do FESTIVAL DE CANNES, que consagrou o turco WINTER SLEEP com a Palma de Ouro, já está disponível na página especial do festival. Relembre aqui o dia a dia de exibição de cada um dos concorrentes.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Hoje, 12 de maio, faz 20 anos que PULP FICTION, de Quentin Tarantino, foi exibido pela primeira vez, no Festival de Cannes de 1994.